Quinta-feira, 23 de outubro de 2014
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Brinquedos violentos

Por Lucy Casolari *


Jogos e brinquedos de guerra têm o poder de hipnotizar crianças e preocupam muitos pais. Mas será que essa discussão se limita aos objetos?

A primeira questão parece ser o porquê de tanto interesse e desejo em possuí-los. Devemos relembrar e explicitar que a agressividade é natural, faz parte do ser humano, um dos componentes da estrutura de sobrevivência, responsável, até, pelo desenvolvimento da humanidade.


Em relação às crianças, essa realidade é negada, mascarada em nome da "inocência infantil". Entretanto, é importante que os pais reconheçam, nos filhos, uma certa dose de perversidade, um lado cruel. Dessa forma pode-se compreender melhor o interesse e a escolha pelos brinquedos violentos.


Faz parte, inclusive, da tarefa de quem educa - família e escola - ensinar aos pequenos o controle dessa maldade que, no dia-a-dia, é visível nos apelidos pejorativos, nas atitudes perversas com os amiguinhos e judiação de animais. As crianças são implacáveis e precisam aprender a conviver com os outros: a chamada socialização, que implica em perceber e respeitar sentimentos e pontos de vista diferentes dos próprios.

E o mundo, como está?

Nesses tempos em que, perplexos, assistimos ao acirramento das posições de ódio e vingança após os atentados nos Estados Unidos e a guerra contra o terrorismo, fica difícil ignorar o clima absurdo de violência. Ao mesmo tempo, temos vivenciado uma série de outros fatos que, infelizmente, fazem parte do nosso cotidiano, mantendo-nos em permanente situação de insegurança e medo: assaltos, chacinas, seqüestros, assassinatos. Resumindo, vivemos num mundo real em que os níveis de violência tornam-se, a cada dia, mais altos e assustadores, devidamente expostos e explorados pela mídia.


Por outro lado, no chamado mundo virtual - filmes, videogames, desenhos animados, programas de TV - o tema faz parte da indústria do entretenimento com suas cenas sensacionais de lutas e mortes e a pirotecnia das explosões. É a banalização da violência que, de tão presente, causa cada vez menos impacto.


Os produtores, na tentativa de manter seus pequenos e fiéis consumidores, são "obrigados a caprichar", ainda mais, na quantidade de efeitos especiais e grau de agressividade. Estudos têm mostrado que esses espetáculos influenciam o comportamento das crianças. Algumas se tornam pessoas atemorizadas e paralisadas diante da vida real, enquanto outras ficam insensíveis a essa violência banalizada.

O que os pais podem fazer

Se a agressividade é um dos componentes da estrutura do ser humano e o mundo está, de fato, muito violento, então, como se posicionar? Além disso - que já não é pouco - o mercado oferece um número expressivo de brinquedos em que a violência está presente de forma explícita ou camuflada. São armas incrementadas com efeitos sonoros, super-heróis dos desenhos animados, sofisticados equipamentos de guerra de todos os tipos. Tudo para seduzir as crianças e, logicamente, vender...


Os psicólogos se dividem na hora de definir se as armas de brinquedo e os jogos de videogame conhecidos como "mata-mata" incentivam o comportamento agressivo. Pesquisas mostram que o problema não está, somente, nos brinquedos. Entrevistas realizadas por psicólogos do Complexo do Carandiru, em São Paulo, com presos de alta periculosidade revelaram que nenhum deles costumava brincar com armas na infância. Complicado, não?


Independentemente de sua opinião pessoal, em algum momento você terá que administrar o uso desses brinquedos. Proibi-los completamente fica difícil. Uma das razões é que tudo o que "não pode" estimula a curiosidade e o desejo de fazer. Além do que, não permitir em casa não garante nada. Seu filho sempre poderá dar um jeito de brincar na casa do amigo, vizinho ou primo. Lembre-se, o controle total não é possível.



Não se trata, evidentemente, de satisfazer a vontade da criança adquirindo imediatamente a última novidade ou modelo. Pois aí sim, você estaria alimentando e estimulando a agressividade em níveis muito além dos razoáveis. Por outro lado, ficar na posição de paladino contra os brinquedos violentos, além de não resolver a questão, vai criar um conflito permanente e poucos resultados práticos. Seja firme, portanto, ao delimitar quantos, de que tipo e quais brinquedos colocará nas mãos de seu filho.

Atenção especial

A sua "campainha de alerta" deve tocar se o interesse recair exclusivamente em jogos e brinquedos "de guerra". Se foram transformados em diversão única e seu filho permanece horas a fio na companhia desses personagens ou completamente seduzido diante da telinha ou computador pelos terríveis e violentos videogames, é claro que está no momento de intervir.


Procure oferecer alternativas atraentes o suficiente para quebrar essa ausência de outros interesses. Lembre-se de que não adianta, apenas, mandá-lo fazer outra coisa: acompanhe-o e participe junto dessas outras atividades. É provável que você enfrente resistências mas, nesse caso, é absolutamente necessário quebrá-las...


Finalizando, o tema da violência presente no nosso dia-a-dia e que tanto mobiliza a mídia, deve ser debatido pelos pais com as crianças no sentido de demonstrar indignação, contrapondo, sempre que possível, alternativas. É preciso desenvolver seu senso crítico para que não aceitem passivamente a idéia muito difundida, infelizmente, de que a vida é assim mesmo... Não se trata de exigir, somente, punição para atos e sujeitos violentos, mas de tentarmos buscar -juntos - a construção de um mundo mais justo, solidário e sem ódio. Acreditando e agindo nessa direção quem sabe se consiga alcançar um futuro mais humanizado.


Reflita um pouco sobre o que declarou Pierre Weil** : "A Unesco, há 40 anos, já deixou bem claro que a violência começa no espírito dos homens. Podem desarmar todos os seres humanos; se não se desarmar a agressividade dentro deles, eles vão se agredir com tapas e pontapés. Faz 60 anos que ouço falar em conferências sobre desarmamento. Tem que desarmar dentro das pessoas, daí a educação para a paz".


**Pierre Weil é psicólogo, educador, escritor e terapeuta. Francês, radicado no Brasil há 54 anos é um missionário da paz. Criou em Brasília (DF) a Universidade Holística Internacional e a Fundação Casa da Paz, que juntas formam a Unipaz, cuja proposta é disseminar conceitos que possibilitem a transformação do ser humano, a partir de uma síntese de métodos ocidentais e orientais.


* Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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