Domingo, 24 de setembro de 2017
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Maternidade e trabalho

Por Tania Novinsky Haberkorn e Sheila Skitnevsky Finger *


Ser mãe e profissional não precisa ser sinônimo de estresse. Aprender a equilibrar as necessidades individuais e as da família, delegar tarefas e buscar o auto-conhecimento são fatores fundamentais para amenizar o cansaço físico e mental da dupla jornada.

A mulher pós-moderna já provou que é possível conciliar maternidade e trabalho. Ninguém disse que ia ser fácil ou que não haveria conflito nessa dobradinha, mas com um pouco de boa vontade a mulher está se saindo mais ou menos bem nessa empreitada. "Mais ou menos" porque apesar de todas as conquistas femininas no mercado de trabalho, a maternidade ainda tem um peso muito grande na vida de uma mulher.

O sentimento de culpa e de desamparo da mulher dessa era pós-moderna é sem fim, pois as exigências são altíssimas. Antigamente, cuidar das crianças era cuidar de suas necessidades básicas, de sua sobrevivência. E a função da mãe era se dedicar a esse fazer sobreviver, às crianças e a si mesma. Não havia um aprofundamento da compreensão do mundo interno psíquico infantil - e tampouco do universo psíquico da mãe...

Assim, educação era um processo de fora para dentro, ou seja, decidia-se o que esperar e cobrar das crianças, como moldá-las, com pouca ou nenhuma atenção para a individualidade de cada criança. Quem não correspondia às expectativas - de comportamento, de aptidão, de conformidade - requeria apenas mais disciplina, com pouco ou nenhum espaço para se questionar o porquê, ou que outras expectativas se poderia ter daquele ser.

Mães sem colo

Com a emancipação da mulher, com as novas psicologias do desenvolvimento, e as novas perspectivas e descobertas médicas e tecnológicas, os modelos de maternidade têm se modificado. Mas não sem um custo para a mulher: um crescente sentimento de desamparo! A mãe pós-moderna foi perdendo o "colo" da comunidade, o modelo das outras mulheres, e o script de como e o que fazer. Sem modelo, sem script para seguir, sem comunidade para ajudar, só resta uma saída: reinventar um modelo de mãe, mulher, e pessoa!

A conseqüência disso tudo é que a mulher está sobrecarregada, estressada e desamparada! Mas como sair dessa? A criação do conceito de "mãe pessoa" visa justamente a uma auto-conscientização de tudo que a mãe está fazendo no dia-a-dia e dos diversos papéis que ela exerce dentro e fora da família. Essa reflexão pode ajudar as mães a baixarem um pouco a ansiedade, podendo assim eleger e priorizar, a cada momento, a cada evento, e para cada situação, onde e como se concentrar e focar: ora nas demandas da casa e da família, ora nas demandas do trabalho ou atividade profissional, e ora nas próprias demandas.

Combine estratégias

É preciso se dar conta de que não existe equilíbrio estático nem estável, mas sim, um processo dinâmico de busca de momentos de equilíbrio, que só podem ser alcançados através de constantes acomodações entre as várias opções viáveis. Além disso, eleger estratégias eficazes e realistas para poder melhor exercer essas funções sem tanto estresse é também fundamental.

As estratégias não precisam ser tão inovadoras ou misteriosas: saber delegar, pedir ajuda, fazer contratos claros com as pessoas à sua volta, cuidar de si... O grande lance está em como combinar estratégias, pois para cada mãe vai haver uma combinação única. Não existem fórmulas mágicas, pois para se alcançar uma combinação eficaz há que se levar em conta o contexto e os recursos de cada mãe, da família, cada sistema.

Mas, uma coisa é certa: as expectativas têm que ser realistas! É muito difícil uma mulher conseguir ser uma profissional que trabalha dez horas por dia e uma mãe presente no dia-a-dia do filho - são variáveis inversamente proporcionais, mas não impossíveis, se as expectativas forem condizentes com esse contexto.

Essa mãe vai precisar de uma creche ou escola de confiança, ou uma pessoa que fique com seu filho enquanto ela sai para trabalhar. Vai ter que conviver com a culpa de não poder estar presente no cotidiano do seu filho, mas se seu filho estiver bem cuidado e feliz, a culpa pode ser bem amortecida. Afinal, o que é mais importante: qualidade ou quantidade de tempo com seu filho? Para cada dupla mãe-filho vai haver uma relação diferente. Depende da mãe e depende do filho. Quantidade sem qualidade não funciona, qualidade sem quantidade também não... Como essas variáveis são muito subjetivas, provavelmente a resposta está nas peculiaridades de cada mãe, do filho, e do contexto familiar e social em que se encontram.

Se a mãe está muito incomodada em não estar participando mais da vida do filho ou se o filho esta reclamando muito da ausência da mãe, não se devem ignorar os sintomas. Às vezes, pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. Não se deve ter medo de ser criativa, de pedir ajuda, de reconhecer o que precisa, e de fazer mudanças na sua vida ou na do seu filho até achar uma combinação que seja mais satisfatória.

* Tania Novinsky Haberkorn e Sheila Skitnevsky Finger são psicólogas e fundadoras do Instituto Mãe Pessoa, que oferece palestras e workshops sobre o papel da mulher na pós-modernidade. www.maepessoa.com.br


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