Segunda-feira, 29 de maio de 2017
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Educação financeira versus endividamento

Por Louis Frankenberg *


Educar inclui muito mais do que apenas alfabetizar e ensinar a tabuada. O ensino de conceitos básicos de planejamento financeiro é fundamental para garantir uma vida tranqüila, sem gastos excessivos, dívidas nem dores de cabeça!

Todos nós temos completa liberdade para gastarmos o dinheiro que ganhamos da maneira que quisermos. Afinal, a própria Constituição Federal, que enumera os direitos fundamentais dos cidadãos, defende em seu artigo 5º o "direito à liberdade". Já o artigo 6º da Constituição determina que temos direito à educação. Por sua vez, o artigo 208 diz expressamente que é dever do Estado proporcionar ensino fundamental obrigatório e gratuito a todos.


Somos, de fato, uma nação privilegiada com uma Constituição tão avançada! A partir desse solene documento, passo a questionar se, na prática, tudo isso está sendo cumprido e se realmente o povo está recebendo a educação que deveria receber. Tenho sérias dúvidas. É inquestionável que o Estado brasileiro esforça-se em dar uma razoável educação aos seus filhos, mas sabemos que educação inclui muito mais do que apenas alfabetizar e ensinar a tabuada.


Em minha opinião, faz parte integrante da educação de um povo, entre tantas outras questões igualmente fundamentais, dar-lhe condições necessárias para cuidar de seus recursos financeiros - no caso brasileiro, recursos na maior parte das vezes bastante escassos! Estes conhecimentos são tremendamente importantes para se conquistar qualidade de vida e um futuro melhor. Não é isso o que queremos e proclamamos constantemente como sendo nossos ideais?


Em palavras mais elaboradas isso significa ensinar à população conceitos básicos a respeito de orçamento doméstico, limitações de gastos, o significado do consumismo, as diferenças entre as diversas taxas de juros, as vantagens e desvantagens de se adquirir bens e serviços a prazo ou à vista e etc. Não são conceitos simples de serem absorvidos, mas, sem dúvida, são muito importantes para a vida de todos.

Educação financeira na escola primária

Às nossas crianças, desde sua entrada na escola primária, devem ser ensinados os malefícios do endividamento excessivo, bem como as vantagens da poupança e da criação de alguma reserva. Nas sociedades modernas, em que o crédito é fácil e simples de ser obtido, torna-se imprescindível explicar alguns dos aspectos negativos do regime capitalista.


A atual crise nos Estados Unidos foi provocada, em parte, pela grande facilidade das concessões dadas no crédito imobiliário. Uma situação semelhante ou parecida não poderia, eventualmente, ocorrer futuramente aqui no Brasil? Julgo que não se pode falar de educação básica enquanto não estiver incluído no currículo do ensino fundamental o aprendizado de conceitos relacionados ao uso responsável das opções de crédito disponíveis, bem como as conseqüências negativas do endividamento e da inadimplência.


Não é suficiente que administradoras de cartões de crédito e instituições financeiras, fundações, ONGs e sites financeiros bem intencionadas, todos pertencentes à iniciativa privada, expliquem para uma minoria atenta e qualificada que não se deve adquirir bens e serviços a prazo sem que se tenha condições para isso. Promover o consumo consciente através dos meios modernos de comunicação (como o fazem algumas instituições financeiras) é apenas um paliativo, não sendo solução definitiva para o endividamento excessivo atual de grandes camadas da nossa população, especialmente aquelas dos segmentos C, D e E.

Crédito abundante e consumo desenfreado

Nosso governo vangloria-se de que o crédito atual oferecido em nosso país é cada vez mais abundante e democratizado. Os mais esclarecidos sabem que este crédito é caro e pouco compreendido pelas camadas menos cultas e informadas da sociedade. Enquanto isso, alguns segmentos econômico-financeiros ganham com a ingenuidade e a falta de conhecimento prático dessa maioria que tem recursos muito limitados. Toda a questão da concessão do crédito para o povo se resumiria a ensinar-lhe os benefícios e malefícios do endividamento excessivo, de saber como controlar seu próprio orçamento doméstico sem comprometer excessivamente o futuro.


Grande parte das famílias das classes C, D e E, ao comprar um produto, apenas verificam se a prestação do bem que pretendem adquirir cabe ou não em seus ganhos. Elas geralmente esquecem outros parcelamentos já adquiridos. Quase nunca é exigido por parte da entidade oferecedora do crédito que seja preenchido algum questionário em que se mencionam quais e quantas dívidas o candidato ao crédito já possui.


Tampouco se pergunta quais cartões de crédito o consumidor possui e de que maneira atende aos compromissos assumidos com a administradora do cartão. Talvez fosse igualmente interessante perguntar ao candidato de crédito de cartão, empréstimo pessoal, empréstimo consignado e, principalmente, de empréstimos imobiliários qual o porcentual do seu orçamento que já está comprometido. Geralmente ele não sabe ou nem se preocupa em saber...

Excessivo endividamento acaba em inadimplência

É óbvio que um povo com tão pouco conhecimento de como conduzir um orçamento doméstico equilibrado dificilmente saberá quais são seus próprios limites e há de sofrer as conseqüências, mais cedo ou mais tarde. As conseqüências são excessivas compras a prazo e débitos no cartão de crédito. E, quando uma ou outra prestação deixa de ser paga, as pessoas acabam se enredando completamente, tornando-se inadimplentes ou tendo de apelar para algum agiota de plantão...


A única solução existente para essas pessoas não caírem na emboscada do dinheiro fácil é ensinar-lhes os conceitos básicos de educação financeira. É claro que alguns industriais e comerciantes não vão encarar muito favoravelmente esta minha teoria, pois o consumo consciente implica também consumir menos! Mas certamente teríamos muito a ganhar se todos tivéssemos condições de discernir entre aquilo que realmente necessitamos adquirir ou o que apenas desejamos, mas é supérfluo. Esta seria a forma inteligente de uso do livre arbítrio numa sociedade capitalista!


Termino esta reflexão fazendo um apelo aos inúmeros governos municipais, estaduais e federal para que introduzam em suas escolas uma nova matéria chamada "educação financeira". Às universidades, fundações, associações e ONGs sem fins lucrativos, faço o mesmo apelo para que criem cursos de educação financeira para crianças e jovens no começo da vida. Um povo mais consciente e feliz lhes agradeceria.

Livro:

Sucesso e Independência - família, carreira e finanças para toda a vida

Autor - Louis Frankernberg

Editora Campus-Elsevier

* Louis Frankenberg é formado em Ciências Contábeis e Atuariais pela PUC, de Porto Alegre, RS. Dirige sua própria empresa de assessoria e consultoria financeira, além de ministrar palestras abordando temas financeiros e comportamentais. Autor do livro Seu Futuro Financeiro, Você é o maior responsável, editora Campus.


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