Quinta-feira, 21 de setembro de 2017
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Aprendizagem musical

Por Arnolfo Borsacchi (ITA) *


Como aos bebês aprendem música, de acordo com a Teoria de Aprendizagem Músical de Edwin E. Gordon

Ao olhar para o seu bebê, muitas mães pensam: "Gostaria que, ao crescer, ele estudasse música!". A idéia de que o estudo da música deveria começar apenas quando a criança estivesse pronta para "fazer" algo através de um instrumento musical ou quando estivesse pronta para compreender os conteúdos teóricos tradicionalmente relacionados à leitura e escrita, é uma idéia antiga e ultrapassada.


Importantes estudos, especialmente aqueles conduzidos pelo Prof. Edwin E. Gordon, desde a década de 1960, têm demonstrado que os processos de aprendizagem da música começam desde os primeiros dias de vida do ser humano, ou seja, desde a gestação. E mais do que isso, estes estudos têm demonstrado a maneira como ocorrem estes processos de aprendizagem.


Podemos considerar que a música é uma espécie de linguagem ou que, ao menos, pode ser aprendida como uma linguagem, já que as regras que organizam os sons, ritmicamente ou harmonicamente, são relacionáveis às regras que organizam a estrutura sintática das línguas faladas nos mais diversos países do mundo.


Da mesma forma que as crianças desenvolvem a linguagem verbal nos primeiros anos de vida, podem desenvolver os processos cognitivos relacionados ao desenvolvimento de uma espécie de "pensamento musical" que, na teoria de Gordon, corresponde ao conceito de Audiação.


Em linhas gerais, a Audiação se refere à habilidade humana de compreender o sentido intrínseco dos sons dentro dos diferentes contextos musicais e, do ponto de vista expressivo, também diz respeito às nossas competências tonais (por exemplo, cantar "afinado") e rítmicas (por exemplo, cantar sem perder a regularidade de um esquema rítmico).

Mas como se desenvolve a audiação?



Progressivamente, os adultos legitimam e reforçam todas as tentativas da criança em estabelecer comunicação verbal, desde os balbucios até as primeiras palavras, e fazem isso utilizando como principal recurso a própria fala. Portanto, podemos considerar que o adulto ensina a criança a falar simplesmente apresentando um rico modelo de utilização da linguagem verbal, isto é, os pais proporcionam à criança um ambiente de aprendizagem informal no qual ela aprende instintivamente, motivada também por aspectos de ordem emocional (relações afetivas) e social (relações com outros adultos e crianças).


Ao mesmo tempo em que se desenvolve a fala, desenvolve-se o que podemos chamar de "pensamento verbal", ou seja, a capacidade de relacionar sons da fala, palavras e conceitos, de compreender a estrutura gramatical e seu uso nos processos de comunicação. De maneira similar, todas as crianças, especialmente nos primeiros anos de vida, podem desenvolver até certo nível o seu "pensamento musical": a Audiação.


Porém, os estímulos musicais que geralmente apresentamos às crianças, nos primeiros anos de vida, não são suficientemente ricos para o pleno desenvolvimento da Audiação. Nem quanto ao conteúdo e nem quanto aos métodos de apresentação.


Na maioria das vezes, as experiências musicais na primeira infância são propostas pelos educadores como um mero entretenimento. Além disso, por motivos históricos, quase 100% do material que é utilizado para a estimulação musical na primeira infância é composto por canções (cujas melodias são formadas por música e letra), e o uso deste tipo de material acaba privilegiando o conteúdo verbal.


Isto ocorre porque, em primeiro lugar, acabamos por utilizar a música apenas como um suporte para o desenvolvimento da fala, e, além disso, os conteúdos musicais destas canções, como são menos importantes do que o verbal, nem sempre compreendem toda a diversidade necessária ao desenvolvimento musical da criança.

A aprendizagem musical, na prática

Então, como a criança poderia desenvolver um pensamento musical em nível comparável ao seu desenvolvimento verbal em idade pré-escolar, se há tanta discrepância entre a qualidade dos estímulos musicais e verbais que recebe em seus primeiros anos de vida?


A pesquisa de Gordon sobre a aprendizagem musical revela que, assim como a criança é exposta a estímulos verbais variados e com diferentes graus de complexidade, nos primeiros anos de vida, ela deveria entrar com contato com estímulos musicais equivalentes.


Os bebês precisam escutar ritmos e melodias que contribuam para revelar a eles toda a riqueza da linguagem musical. Podemos dizer que as crianças precisam ter a oportunidade de conhecer os principais metros (padrões rítmicos) e modos (padrões melódico-harmônicos) musicais. Em outras palavras, os bebês e as crianças em idade pré-escolar precisam escutar todos os tipos de música, especialmente os mais ricos e complexos.


Entre estes tipos, a música clássica ou erudita, a música popular (com destaque para as músicas que, como o jazz, têm composições elaboradas e fazem uso de improvisação) e a música étnica ou folclórica dos diversos países do mundo. Para que haja maior aproveitamento e compreensão dos estímulos, esta grande diversidade musical deve ser apresentada a partir de exemplos breves e contrastantes, intercalados com igualmente breves momentos de silêncio.


Mas, assim como no desenvolvimento da linguagem verbal, uma mera exposição da criança a toda esta variedade e complexidade de estímulos não são eficientes ou suficientes sem a ação direta do adulto educador (principalmente os pais). No processo de aprendizagem musical e de desenvolvimento da Audiação os pais têm o papel mais importante: o papel de oferecer um modelo vivo e presente para o desenvolvimento musical da criança. Para isso, devem cantar para a criança de uma maneira especial, com expressividade (cantar para expressar sensações e emoções).

Algumas sugestões de atividades

Por meio do canto, o educador pode brincar com a voz, com os movimentos corporais, com a respiração e com o olhar. Esta é a melhor forma para estimular a criança no desenvolvimento da Audiação. Podemos cantar breves trechos melódicos de canções, substituindo as palavras (letras destas canções) pelo uso de sílabas simples e neutras ("la-la-la...", "pom-pom-pom...", etc), de maneira que estas seqüências de sílabas não sejam confundidas com palavras de qualquer idioma.


Ao cantar para a criança, também é importante o cuidado com o espaço ambiente, para garantir que ela possa receber o estímulo do cantar com o mínimo de obstáculos (outras vozes em conversa, sons de rádio, televisão, discos, entre outras interferências sensoriais).


Finalmente, nesse momento de estimulação musical, tente deixar de lado a comunicação verbal e, por meio dos sons musicais, brinque de "falar música" com o seu filho. Você pode começar agora mesmo!


* Arnolfo Borsacchi (ITA) é músico e educador especializado em educação musical para bebês e crianças; professor associado e delegado da Aigam (Associação Italiana Gordon para a Aprendizagem Musical), é consultor pedagógico da Baby Arts - Música e Interação.


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