Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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A televisão e os seus filhos

Por Dr. Samir Wady Rahme *


Conheça a visão da Pedagogia Waldorf a respeito do desenvolvimento infantil e da influência da televisão sobre as crianças.

Durante vários anos, ouvi uma frase que sempre me intrigou: "A Pedagogia Waldorf é contra a televisão". Sempre me perguntava como uma orientação pedagógica poderia ser contra um veículo de comunicação. No presente artigo, espero poder discutir, a partir dos conhecimentos oriundos da Antroposofia, sobre o processo de aprendizado da criança - principalmente no período de 0 a 7 anos de idade - e assim tentar analisar, afinal, que tipo de influência esse aparelhinho eletrônico exerce sobre os pequenos.

Antes de mais nada, vamos entender o que nos elucida o conhecimento da Antroposofia sobre essa época da vida:

1. O padrão que rege o aprendizado tanto mentalmente como biologicamente na criança será o da "imitação". Isso é facilmente observável, principalmente em crianças que convivem com irmãos mais velhos.

2. É, portanto, nessa época que a criança mais absorve o seu meio ambiente, ou seja, se o ambiente é tranqüilo a criança terá maior propensão a ser tranqüila e vice-versa.

3. Uma das características mais marcantes será sua fantasia, ou seja, com alguns toquinhos de madeira a criança pode passar horas brincando e imaginando toda sorte de situações.

4. Não podemos esquecer que ela é um ser totalmente aberto e confia plenamente em quem está ao seu lado. Ela aceita tudo que lhe dão, pois acredita que é bom para si.

5. Se pensarmos que o corpo humano tem uma espécie de divisão anatômica bem definida em três partes: cabeça, tronco e membros, e que nosso pensar está mais relacionado à cabeça, nosso sentir, mais relacionado ao tronco, onde se encontraria o agir? Pois é, nos membros.

O que quer dizer que o agir seria uma parte integrante de nossa barriga, em vez da cabeça? Ora, a cabeça sempre tenta dar voz de comando, mas quem age mesmo são as pernas, os braços, os músculos que estão em nossa periferia. Pois bem, para que todo esse discurso? É simples: Você acha que dos 0 aos 7 anos a criança se encontra mais no pólo dos membros (metabólico) ou na cabeça (pensar)?

Na visão antroposófica, o pequeno ser é pura vontade, motivo pelo qual sua atividade é tão fortemente marcada por sua capacidade imitativa, pois as células estão se reproduzindo rapidamente e fazendo o organismo crescer. Ela vive no movimento e na percepção do próprio corpo!

Bem, vamos ao outro lado: o que é a televisão?

1. Um veículo de comunicação que fica parado em algum lugar da casa.

2. Sua tela bombardeia nossas retinas com milhares de mudanças por minuto, seja na informação ou nas cores (Faça a experiência de virar sua TV à noite para uma parede branca, apague as luzes e veja o que acontece).<

3. Para manter nossa atenção é necessário que os programas tenham um ritmo sempre maior do que nossa capacidade de percepção.

4. Hoje é muito comum a rápida troca de canais sem se fixar em nenhum deles (graças ao controle remoto!).

5. Poucos são os programas que têm um caráter pedagógico.

6. A televisão (ou seja, os programas) é um produto pronto, acabado e sem nenhuma interatividade.

Fazendo agora uma comparação entre a atitude saudável de uma criança e a televisão, descobrimos que a criança é puro movimento e a TV é pura estática. A TV já foi por diversas vezes denominada "babá eletrônica" pois propicia algumas horas de descanso aos pais...

Como a criança imita, ela irá sempre aprender mais no contato direto com pais, irmãos, avós, primos, etc. A criatividade de uma criança não é ativada quando está diante da TV, pois aqui se apela justamente para a atenção, para a fixação dos olhos na tela o que por si já denota uma alteração da atividade motora.

Bem, dito isso poderíamos chegar a uma conclusão bem simples: TV e criança não combinam, mas ao mesmo tempo constatamos que a tela da TV exerce um grande magnetismo sobre esses mesmos seres. O que fazer? Primeiramente, deveríamos pensar que a responsabilidade desses pequenos seres não está neles e sim nos seus responsáveis (pais, avós, tios,etc) e quanto mais cedo tivermos consciência de que o elemento natural para o desenvolvimento da criança é o "brincar", mais teremos força para pelo menos limitar o acesso à TV.

Não se trata de uma questão de proibir a TV pura e simplesmente, e sim de ter em mente que esse tempo em frente à tela é muito pobre e não vai ao encontro dos anseios mais importantes da criança. A criança, ao contrário do que se pensa, é um ser que tem uma grande relação com a "qualidade" e não com a "quantidade". Um pouco de verdadeira atenção e carinho amoroso bastam para colocarmos a criança no seu elemento natural e podermos "brincar" com ela, usando os mais diversos materiais - que com certeza ela irá procurar desvendar e se entreter.

O famoso "não tenho tempo" deixa de existir quando os pais se conscientizam que tempo é mera questão de opção e estar com os filhos, participar de seu crescimento, torna-se uma fonte inesgotável de prazer. Mas temos de dar uma chance para que essa relação se concretize. Brincadeiras de montar, de boneca, de casinha, bola, amarelinha, bicicleta, sempre estiveram no repertório infantil e continuarão sendo fonte de inesgotável criatividade. Depois de alguns anos, pude finalmente perceber que a Pedagogia Waldorf nunca foi contra a televisão e sim a favor das crianças, de um desenvolvimento mais antropológico e saudável.

Sites de interesse

www.aliancapelainfancia.org.br
www.federacaoescolaswaldorf.org.br

* Dr. Samir Wady Rahme é médico antroposófico e maestro. Conheça seu blog aqui


Comentário:    
       
florenciosantos 19 de February de 2011 | 10h 33

Realmente a tv tem deixado a desejar. Conheço pessoas que não deixam seus filhos assistirem programas na tv aberta e paga.

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