Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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Quando a televisão vira inimiga

Por Carla Oliveira *


A televisão pode interferir de forma negativa na formação das crianças e adolescentes. Saiba o que você pode fazer para tentar melhorar a qualidade da programação

Passar horas em frente à televisão, todos os dias, pode prejudicar muito as crianças. Grudadas na telinha, elas não exercitam a capacidade de pensar, o que acaba gerando falta de iniciativa e desinteresse por outras atividades, problemas de concentração, inibição da criatividade e até mesmo dificuldades de raciocínio. Mas, o assunto desta matéria não é o tempo que os pequenos gastam assistindo à televisão e sim a qualidade dos programas que estão sendo transmitidos e de que maneira isso afeta seu filho.


Muitas pessoas defendem que filmes e programas, por si só, não são capazes de determinar o comportamento. É claro que a televisão não é um "monstro" que pode transformar qualquer pessoa num assassino. Mas, esse aparelhinho é sim um poderoso instrumento de transmissão de valores, cuja força pedagógica afeta particularmente as crianças e adolescentes, que estão em fase de construção da sua personalidade.


Segundo a psicanalista Ana Olmos*, a formação da personalidade ocorre através de mecanismos de identificação e projeção. A criança e o adolescente assimilam conceitos, idéias e comportamentos do mundo externo, e os reproduzem. Esses conceitos são transmitidos pelos pais, pela escola, pelos amigos e também por outros elementos presentes em sua vida, como a televisão.


Considerando-se que uma criança assiste entre 3 e 5 horas de televisão por dia, fica fácil concluir que esse aparelhinho também está inserido no cotidiano da criança e, portanto, também exerce influência. O problema é que essa influência é, muitas vezes, negativa. É por isso que os pais devem estar bem atentos sobre o que está sendo transmitido aos seus filhos através da TV.

Um desserviço à educação!

Uma das questões que se tem discutido muito atualmente é o estímulo cada vez maior ao consumo. Muitos anúncios, novelas e filmes deixam a impressão de que, em nossa sociedade, o "ter" é mais importante do que o "ser", isto é, você vale o que você consome e não o que você é. Na sua opinião, uma criança tem maturidade suficiente para decidir o que ela deve consumir? Na Suécia, o governo decidiu vetar a propaganda televisiva dirigida a crianças, devido à vulnerabilidade dos pequenos em relação aos apelos dos anunciantes.


Mas, na maioria dos países, a propaganda está liberada. E não é só nos anúncios que existe a incitação ao consumo. Nas novelas e em outros tipos de programas, a mensagem está sempre presente e, junto com ela, vem a futilidade e o desprezo por valores importantes como a amizade e a honestidade. Cultua-se o corpo malhado, a roupa transada, o celular moderno. É por isso que modelos, cantores e participantes de reality shows que não têm nada de útil para dizer e sequer podem ser considerados artistas, acabam virando "ídolos".


Outra queixa em relação ao conteúdo da televisão é o incentivo constante à violência. Sim, a violência faz parte da realidade. Mas, segundo a Dra. Ana Olmos, muitos programas de televisão tratam a violência de forma glamourosa, justificando-a como um meio eficaz de resolver conflitos. Isso acontece, por exemplo, quando heróis ou pessoas tidas como modelo pelas crianças usam a violência e não são punidas ou, pior ainda, são recompensadas.


Também tem sido criado um verdadeiro espetáculo em torno da violência que, se não a estimula, certamente nos leva a aceitá-la como algo natural. Crimes são discutidos à exaustão, detalhes sórdidos e até mesmo fotos de corpos são divulgadas, reconstituições são exibidas inúmeras vezes. E isso acontece todos os dias, principalmente nos programas vespertinos, o que acaba banalizando a violência. Os apresentadores se dizem horrorizados, mas a verdade é que poucos realmente se chocam e buscam cada vez mais crimes aterrorizantes para mostrar.


E não podemos deixar de lado a questão da sexualidade. Novelas cansam de fazer referência ao sexo e mostrar mulheres e homens sem camisa. Programas de auditório adoram entrevistar modelos que posaram para revistas masculinas e até mostram as fotos. Dançarinas não se inibem em dançar praticamente nuas, e permitem ser filmadas em ângulos nada discretos.


Tudo remete ao sexo e leva a crer que todas as relações humanas são baseadas apenas em sexo. Crianças que mal sabem dizer seu nome já usam roupas curtas e provocantes, pois vivem em uma atmosfera que exala sexualidade. Elas sabem que têm que ser sexy, mas não sabem nem por que. Adolescentes iniciam sua vida sexual cada vez mais cedo, pois são levados a crer que sexo é algo pode ser feito sem critério algum, já que ele está totalmente banalizado.


Poderíamos escrever um livro inteiro sobre conceitos deturpados que a televisão transmite, e que infelizmente estão sendo enraizados na nossa sociedade. Outros conteúdos igualmente impróprios são freqüentemente exibidos pelos programas, tais como: piadas preconceituosas, pornográficas e machistas; desrespeito e humilhação de pessoas em programas de auditórios; uso de linguagem inapropriada; reforço de estereótipos, como o da "mulher-objeto"; discriminação de qualquer tipo (contra gordos, mulheres ou negros, por exemplo); cenas de uso de drogas e abuso de álcool; exploração da imagem de pessoas com doenças ou deficiências.

Ajude a mudar essa situação

Limitar o tempo que seu filho passa em frente à televisão não é suficiente para resolver este problema. O que os pais precisam fazer é apresentar uma postura crítica em relação ao conteúdo da programação e discutir esse assunto com os filhos. Assista a alguns programas junto com eles e ajude-os a discernir os valores que estão sendo transmitidos, ressaltando os aspectos negativos e, quando houver, os positivos.


No site da ONG Tver, pais e professores podem ter acesso à "Cartilha do Jovem Telespectador", criada por Célia Marques, Eloisa Carneiro e Sônia Thorstensen. A cartilha deve ser preenchida pelas crianças e jovens e pode ser o ponto de partida para a adoção de uma postura crítica em relação ao conteúdo exibido pela televisão. Imprima e use! Clique aqui para acessar a cartilha.


Uma coisa importante que você pode fazer é discutir com seu filho a possibilidade de não comprar produtos de empresas que patrocinam programas considerados ofensivos ou sensacionalistas. Essa é uma das propostas da campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania", lançada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em novembro de 2002. No site da campanha (www.eticanatv.org.br), você encontra o ranking dos piores programas da televisão brasileira, notícias e artigos a respeito das atrações televisivas.


Há também um espaço para enviar denúncias. Se algum programa exibir qualquer conteúdo que você considere inadequado, não hesite em fazer sua reclamação! Escreva para o e-mail eticanatv@docline.com.br, ligue para 0800 619619 ou mande uma carta para: Comissão dos Direitos Humanos, Câmara dos Deputados, Anexo II, Sala 185A, 70160-900, Brasília, DF. Ao formular sua denúncia, forneça todas as informações que puder: emissora, nome do programa, horário em que foi transmitido e descrição dos fatos que deram motivos à reclamação. Sua identificação não é obrigatória.



* Ana Olmos é psicanalista infantil, membro do Conselho de Acompanhamento da Programação de Rádio e Televisão da Campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania" da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, e atual presidente da ONG TVer.



Para saber mais:


www.eticanatv.org.br




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