Quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
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Sem pressa para sair de casa

Por Carla Oliveira *


Hoje em dia, é comum que filhos continuem morando com os pais, mesmo depois de adultos. É a chamada "geração canguru"!

Eles são adultos, já terminaram a faculdade há alguns anos, têm emprego e carro, mas ainda moram com os pais. Seja por comodidade, dependência financeira ou até por insegurança, os filhos estão adiando a deixada do "ninho" e por isso vem sendo chamados de "cangurus" - já que os filhotes desse animal vivem dentro da bolsa marsupial da mãe durante cerca de um ano. Na casa dos pais, a situação é confortável: geladeira cheia, roupa passada dentro do armário, conta de luz paga. De fato, nos dias de hoje, é difícil encarar todas as responsabilidades e despesas de uma casa sozinho.


Em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, os jovens saem de casa assim que terminam o colégio, pois geralmente vão cursar faculdade em outra cidade, e acabam tornando-se independentes mais cedo. No Brasil, os filhos permanecem na casa dos pais até o casamento - que, por sua vez, está acontecendo cada vez mais tarde. Algumas décadas atrás, era diferente. Idealistas, os jovens saíam de casa para conquistar seu lugar ao sol - e também porque a convivência com os pais era difícil, em função da diferença de mentalidades. Hoje, sem o chamado "conflito de gerações", eles acabaram se acomodando.


Não podemos esquecer também que a situação econômica não está nada fácil. Por mais qualificado que seja o profissional, ele pode amargar meses ou anos na fila do desemprego e, muitas vezes, tem de se submeter a um cargo abaixo de suas expectativas, com um salário inferior ao seu padrão. Conquistar a independência financeira é um objetivo cada vez mais distante para o brasileiro. Nesse contexto, a casa dos pais, onde as despesas são divididas, torna-se um poderoso refúgio.

Necessidade ou opção?

Estar perto dos pais e dos irmãos é um dos principais motivos que levam o diretor de arte Maurício Spina, de 29 anos, a continuar da casa dos pais. "Minha casa é grande e eu me dou muito bem com minha família", afirma. Para o jornalista Eduardo Generoso, 29, outro integrante da "geração canguru", a questão econômica também tem um peso importante. "Mesmo que você ajude em casa, como eu faço, sempre sai mais barato. Se eu fosse morar sozinho, meu padrão de vida certamente cairia", revela. Maurício também dá uma força no orçamento doméstico: "Lá em casa eu pago algumas contas, compro comida, ajudo a financiar a reforma. Afinal de contas, é o mínimo, né?".


Para Eduardo, uma das desvantagens de não morar sozinho é não poder controlar os gastos. "Não sei como é o orçamento da casa, quanto dinheiro entra por mês e quais são as despesas. Quando eu morar sozinho, acho que vou poder planejar melhor isso", acredita. O jornalista diz não sentir-se pressionado a sair de casa. "Muitos amigos meus também moram com a família. Hoje, com o alto custo de vida, isso é comum", afirma.


O designer gráfico Carlos Benedetti, 30, também mora com o pai - a mãe faleceu há três anos. "Meu pai tem 83 anos e isso pesa em minha saída de casa", afirma. E, como Carlos não está namorando e não tem perspectivas de casar-se a curto prazo, acredita que essa é a melhor opção no momento. Além disso, ainda não conquistou a tão sonhada independência financeira. "Não foi por comodismo, mas por falta de oportunidade", destaca.


Carlos não se conforma com o fato de que, no Brasil, jogadores de futebol ganham salários astronômicos, ao mesmo tempo em que pessoas com formação acadêmica invejável não tenham uma perspectiva nem parecida com essa. Para ele, a única alternativa que lhe resta é tentar um cargo público. "Vou ter de deixar de fazer o que me dá prazer para fazer algo que me traga alguma segurança financeira", lamenta.


Carlos não se sente pressionado a sair de casa, mas afirma que seu pai, por ser uma pessoa idosa, tem medo de morrer sem que o filho tenha conquistado a independência financeira. "Queira ou não, ainda dependo dele economicamente", afirma. Quanto aos amigos, o designer diz que alguns o consideram sortudo por ainda morar com o pai. "Já outros não falam diretamente, mas percebo que me acham um acomodado. Mas, não ligo para o que os outros pensam", finaliza.

Ah, o carinho da mamãe...

Para muitos, o filho adulto que ainda divide o mesmo teto com os pais é visto como uma pessoa insegura que foi, e continua sendo, muito mimada pela mãe superprotetora - esta, capaz de preparar seu prato favorito todos os dias e de passar a noite acordada esperando-o voltar da noitada, ainda que ele já tenha ultrapassado a casa dos trinta. Para esse tipo, torna-se ainda mais difícil desvincular-se dos cuidados maternos. Mas, é claro que nem todos são assim.


"Esse estereótipo é um pouco válido, sim. Sou meio paparicado. Mas, por outro lado, meus pais andam viajando muito, o que me dá um pouco mais de liberdade em casa", revela Maurício. Eduardo concorda. "Mãe é mãe. Ela sempre vai te tratar de um modo especial, te conceder privilégios. E quem não gosta de mordomia?", questiona.


Os pais em geral gostam dessa situação, pois podem desfrutar a companhia dos filhos por mais tempo. Para a mãe, principalmente, é importante ver que o filho ainda precisa de seus cuidados, de seus mimos. Ela sente-se útil em seu papel. Toda essa paparicação é uma forma que ela encontra de atrair os filhos, para que eles gostem de ficar em casa, debaixo de suas asas.

Tudo tem limite!

Existem outros casos em que a coisa se complica. Há muitos homens e mulheres mais velhos que ainda vivem sob o mesmo teto que seus pais, mesmo já sendo totalmente independentes financeiramente - alguns são até mesmo casados e têm filhos. "Muitas dessas pessoas são produto de armadilhas familiares. E, quando se dão conta disso, sempre arrumam desculpas para não encarar sua baixa auto-estima. Sair dessa armadilha é como um segundo parto", revela a psicóloga Magda Pearson.


Segundo Magda, eles alegam problemas financeiros ou dão outros motivos razoáveis, mas na verdade são inseguros e dependentes afetivamente dos pais e irmãos. "Geralmente, não confiam plenamente em si mesmos e possuem relacionamentos complicados com seus parceiros", explica. Situações como essa pedem a ajuda de um psicólogo. Afinal, todo canguru terá de deixar a bolsa um dia...


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