Sexta-feira, 21 de julho de 2017
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Birra, negação e anarquismo

Por Célia Svevo *


Seu filho diz não a todo momento? Dá escândalo quando não consegue aquilo que quer? Relaxe, essa é uma fase passageira e superá-la também depende de você.

- "Meu filho tem 5 anos e há algumas semanas decidiu que não quer tomar banho. O que fazer?"
- "Minha filha de 3 anos quase sempre responde com um não quando solicito alguma coisa. Isso é normal? Procuro ter paciência, mas nem sempre consigo!"
- "Por que as crianças estão sempre nos testando e dizendo não?"


Essas são perguntas muito freqüentes nos consultórios pediátricos. Os pais, além de "enlouquecidos" com a guerrilha instalada em seus lares, ficam em dúvida sobre como proceder. Bater, castigar, levar a um psicólogo? Mantenha calma, pois você não está sozinho! Esse comportamento é normal e, se você souber manejar corretamente a situação, tende a ser passageiro.

"Entre um e dois anos e meio de idade, a maior parte das crianças passa pela fase do negativismo. É o período do NÂO, para tudo! Não obedecem, fazem birra e desafiam os pais a todo momento", esclarece o Dr. Leonardo Posternak, pediatra em São Paulo, autor do livro O Direito à Verdade - Cartas Para Uma Criança (Editora Globo).


Na verdade essa fase começa bem mais cedo, mas muitas vezes nem percebemos. Aos dois ou três meses de idade, por exemplo, um bebê pode estar "dizendo" NÃO à mãe quando rejeita seu peito com o simples gesto de empurrá-lo, com as mãozinhas, e se jogar para trás, num claro movimento de negação. Certas mulheres até ficam preocupadas com isso, achando que estão sendo rejeitadas. Mas não há com o que se preocupar. Basta não forçar! "Afaste-se um pouquinho do bebê para que ele se distraia e recomece a amamentação. Você vai ver como - desta vez - ele não irá rejeitá-la!", garante o médico.


De acordo com o Dr. Leonardo, dos nove meses a um ano, o bebê começa a "dizer" NÃO com a cabeça, exibindo um sorriso maroto nos lábios, imitando os adultos, para que percebam que ele quer fazer algo proibido (como colocar os dedinhos na tomada, por exemplo). E na seqüência, numa terceira fase, finalmente verbaliza o NÃO.

Birra, uma cena magistral!

A birra - que representa uma oposição ativa - aparece tanto diante de situações de negação por parte dos pais com relação ao que a criança queria fazer, quanto por não querer fazer algo que os pais desejariam que ela fizesse como, por exemplo, tomar banho. "Ele não quer sair da TV para tomar banho!" Você já passou por isso? Ou seu filho insiste em mexer em algo proibido?


"Esse tipo de situação é muito freqüente. A criança também pode fazer birra em situações de dor física: quando martela o dedo e se machuca, por exemplo. Ou não consegue realizar uma tarefa, fica frustrada e arma um escândalo. A birra, por si só, não é uma situação anormal e perigosa. O perigo está em como os pais lidam com ela e - é claro -, com os limites", diz o pediatra.

Os famosos limites...

É obrigação dos pais lidar bem com essa situação para que consigam formar, no futuro, um bom cidadão. E para que isso aconteça, a criança já deve ter tido contato com frustrações para aprender que a vida não é um desfiar de "SINS". É preciso que ela seja capaz de viver numa comunidade!


"O importante é saber lidar com a birra mesmo que, em nossa sociedade, o SIM seja valorizado e compreendido como sinônimo de tratar bem. Quem é bonzinho diz SIM! Quem é mauzinho diz NÃO! E, diante de uma situação de birra, um NÃO pode acabar virando SIM e confundindo a cabeça dos pequenos, que perdem os parâmetros e serão grandes candidatos a personificar a figura do chato", ensina o Dr. Leonardo.


As birras mais constrangedoras acontecem em públicos, não é mesmo? E os pais muitas vezes acabam cedendo por uma pressão externa (pois a interna já existe neles!). Estão correndo sérios riscos de se envergonharem diante da reação do "público", que talvez o considere mau pai pelo fato da criança estar gritando, se jogando no chão.


Segundo o pediatra, é dever da família ensinar os filhos a perder coisas, a aceitar frustrações, a elaborá-las e viver bem assim mesmo. "No caso de uma birra em público os pais devem agir como se estivessem em casa, ou seja, sem público. Mesmo que isso seja desagradável e que recebam olhares críticos! Quando os adultos conseguem manter a calma, olhar a birra e não se envolver com ela, em poucos minutos a criança se acalma. E aprende rapidamente que o melhor caminho para seus objetivos não é aquele".

Coerência é fundamental

Uma criança que não aprende a lidar com frustrações e limites não aprende a viver neste mundo cheio de limitações. É preciso, também, que ela saiba lidar com escolhas e perceba que muitas vezes na vida, ao escolher uma coisa - ou um caminho - estará necessariamente abrindo mão de outra. Uma criança que viveu o período do negativismo de uma maneira saudável, ou seja, aprendendo a respeitar limites e lidar com frustrações em geral supera essa fase por volta dos quatro anos.


Se a família (ou a babá, ou a professora) não tiver um bom manejo prévio da birra (que implica em não ceder), tanto pais quanto filhos sofrem muito, principalmente quando ela atinge seu ápice e inclui o espasmo do choro. Nessa caso o pequeno prende a respiração na fase expiratória, engole ar, o oxigênio começa a cair e ele perde a consciência por alguns segundos. Normalmente os pais se apavoram e se sentem extremamente culpados. Acredite: é preciso resistir ou a criança terá a certeza de que o choro é capaz de dominar a família toda.

Depois da negação, a anarquia

Segundo o Dr. Leonardo Posternak, no finalzinho da fase do negativismo - em torno dos quatro ou cinco anos de idade - algumas crianças já demonstram estar entrando num período anárquico. "Nessa idade, todos sabemos, eles têm a cabeça dura e pensam que se há "governo" (ou autoridade) são contra, por princípio". E completa: "o anarquismo é mais sofisticado que o negativismo. É o momento em que a criança quer saber os motivos de tudo. Se você diz NÃO, simplesmente, ela diz que isso não é resposta. A sofisticação está justamente numa maior elaboração do jogo de relações e ocupa um espaço saudável no desenvolvimento infantil".


Quando a criança atinge os cinco ou seis anos de idade, os pais começam a poder negociar, evitando situações estressantes e, em geral, depois de um ano, ela começa a entrar num esquema onde seu próprio círculo social passa a regular certas regras de boa convivência. Uma criança que apresenta um comportamento inadequado tende a ser "enquadrada" pelos próprios amiguinhos.


Mas fique tranqüilo: há crianças que têm uma índole tão boa que não passam pela fase do anarquismo. Outras, em contrapartida, já nascem anarquistas. Tudo isso é normal! Só em casos extremos uma avaliação psicológica pode ser necessária.


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