Quinta-feira, 21 de setembro de 2017
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Início da adolescência, o desafio das escolas

Por Norma Leite Brandão *


Seu filho cresceu e, de repente, a escola em que ele sempre estudou não parece mais a mesma. O que aconteceu?

Seu filho está na 5ª série. A escola é a mesma, escolhida com carinho e cuidado, desde o início do ensino fundamental... Mas por que, em inúmeros momentos, você tem a sensação de que são duas escolas diferentes?


Saiba que esse sentimento não é exclusivamente seu. É vivido também por alunos e, acredite, muitas vezes pelos próprios professores. Há vários motivos que propiciam esse desconforto, uma sensação de desencontro, como se existissem linguagens, valores e procedimentos diversos no mesmo ambiente escolar.


Então vamos por partes para compreender melhor o que acontece.


É importante que os pais tomem consciência de que a educação formal tem passado, nos últimos anos, por muitas alterações. São mudanças de visão de mundo, de postura de trabalho e de propostas pedagógicas que começaram na escola de educação infantil. Paulatinamente, as escolas têm buscado a continuidade dessa filosofia ao longo das quatro primeiras séries do ensino fundamental.


Essa unidade é mais facilmente conquistada nesse período, com uma professora polivalente, em contato freqüente com a classe. Ao mesmo tempo, os alunos vivem, nesse período dos 7 aos 10 anos, uma fase de grandes descobertas no aprendizado e de conturbações mais facilmente administráveis.


Os pais, nessa época, também estão numa espécie de lua-de-mel com a escola. Parecem encantar-se com propostas em que os filhos tenham a oportunidade de expressar-se, de debater suas idéias, de buscar um caminho próprio na resolução de problemas.


Algumas inquietações surgem por parte da família, que vê a 5ª série aproximar-se, mas nada que se aproxime do sentimento que experimentam quando passam a viver, no dia-a-dia, uma realidade que lida com vários professores, uma dinâmica marcada por aulas de cinqüenta minutos e pontuada por avaliações mais formais. Nesse momento algo parece fazer com que todos percam o pé. É quando os pais mais se ressentem e buscam explicações.

Um caminho ainda em construção

Pois bem. Esse período da 5ª à 8ª série poderia ser chamado de "o grande desafio das escolas" hoje, por vários motivos. O primeiro deles é contar com professores especialistas em suas áreas, mas inúmeras vezes sem o preparo necessário para atuar de acordo com os preceitos de um novo modelo educacional. Esse fato, aliado ao grande número de profissionais envolvidos, pode causar um certo descompasso na escola, se a equipe de educadores não estiver sintonizada. Uma espécie de "Torre de Babel".


Um outro fenômeno também pode estar presente: um apelo excessivo à teoria, aos conceitos desvinculados da prática. Ao mesmo tempo em que parecem estar preocupados em dar continuidade à linha metodológica até então adotada, esses profissionais têm o foco no que virá depois: o ensino médio. Muitas vezes sentem-se pressionados e presos mais rigidamente ao conteúdo.


Resultado? Um ensino extremamente teórico, técnico, que propicia a dispersão e o desinteresse. Tudo isso ocorre porque esse período ainda está sendo repensado, reconstruído pelas escolas. São alterações que exigem ousadia, experimento e tempo. Essa realidade causa uma profunda insegurança no corpo docente, formado por outros padrões. E reflete-se nos alunos e na família.

A panela de pressão

Acha que as questões se resumem à escola? Não. Pense um pouco em você. Na sua correria, no pouco tempo disponível para os filhos... e na falsa crença de que o adolescente já cresceu e que daqui para frente as coisas são diferentes. Nessa fase é comum que digam a seus filhos frases lapidares: agora é sério, a brincadeira acabou.


Muitos esperam, mesmo, que o aumento de conteúdo surja nesse instante. E que uma série de ansiedades sejam resolvidas. Cobram dos profissionais, muitas vezes, que dêem conta também de aspectos específicos que, num tempo passado, pertenciam à família, como os referentes à construção de valores.

Se tudo parasse por aí, já teríamos uma bela encrenca. Mas, como desgraça pouca é bobagem, junte às questões acima, o momento que seu filho atravessa: o início da puberdade... trágico, não?


Hormônios, muitos hormônios... Se os professores estão numa feroz busca de caminhos, os alunos também não facilitam nada, mais inquietos e arredios. Ah! O delicado período da adolescência! Tudo é questionado, possuem os mais diferentes apelos, enfim, a sala de aula parece ser o espaço da resistência. Essas questões, mais a ansiedade gerada pela família, transformam a escola numa autêntica panela de pressão.

Fogo baixo e precauções

Não, não há receitas prontas. Mas há dicas que podem ajudar todos a ultrapassar esse momento mais saudavelmente. Principalmente porque esse é um período de desequilíbrio de todas as partes envolvidas e há necessidade de alguns cuidados. Então vamos lá:


  • Não imagine que seu filho cresceu e está independente só porque chegou à 5ª série. Ele ainda precisa de auxílio e de orientação. Por isso, ajude-o a reservar tempo para as lições de casa, trabalho e para o estudo diário. Lembre-se: nesse período, organizar as tarefas é um desafio, em vista dos diferentes professores e do volume que pode ocorrer.

  • É importante que esse "cerco" inicial vá dando espaço para que o adolescente caminhe sozinho. Ele precisará, ao longo dos próximos quatro anos, ter a autonomia necessária e esperada. Por isso, é fundamental que você, com intuição, perceba quando "tirar o time de campo". Gradativamente.

  • Faça com que seu filho perceba a importância de saber lidar com as diferenças. Por mais que haja uma linha comum entre os profissionais, aprender a conviver com as especificidades de cada um é muito positivo, não só no momento, mas para o que virá posteriormente.

  • Ensine-o a se posicionar com adequação diante dos professores. Quando problemas surgirem, incentive-o a se expressar e buscar caminhos por si próprio. Isso não é fácil, mas necessário. Você não poderá eternamente resolver seus problemas.

  • Procure, por mais difícil que seja, diante de qualquer situação vivida pelo adolescente na escola, o equilíbrio e a isenção. Num primeiro instante, isso é fundamental. Nada pior do que, desconhecendo as ocorrências, dar razão a seu filho. Toda história tem dois lados. Cabe à família inteirar-se dos fatos e ajudar os filhos a enxergar a sua parte.

  • Na insatisfação ou dúvida sobre como agir, é salutar entrar em contato com a escola, individualmente. Há famílias que, diante de questões mal resolvidas, organizam grupos de pais para reivindicações. Lembre-se: tudo o que você faz é observado por seu filho e pode lhe indicar que não há confiança nos profissionais. Há caminhos anteriores e que, certamente, podem ser mais produtivos e eficazes.

    Sabendo usar os ingredientes

    Necessariamente a panela de pressão não precisa explodir. Aliás, nem mesmo é essa a sua função. Uma boa panela de pressão, quando bem utilizada, com os devidos cuidados e atenção, produz calor, transforma o alimento e propicia a todos uma refeição saudável e necessária. Então por que não aproveitar todos esses ingredientes em ebulição para fazer do cotidiano dos adolescentes algo assumido por eles com responsabilidade?


    Isso se faz com paciência, persistência e procura de caminhos. Também não acontece de forma solitária ou com movimentos organizados que possam dar a seu filho a imagem de fragilidade da instituição. Busque no adolescente e nos profissionais as respostas às suas inquietações, o que significa estar presente na vida de seu filho e nas situações de encontro proporcionadas pela escola.


    Saiba, ao mesmo tempo, compreender que nem sempre professores e coordenadores têm as respostas prontas. Precisam da ajuda dos pais nesse percurso. O mais importante é enxergar nesse aparente momento de crise, as possibilidades de crescimento, sem jamais se esquecer de que cada um tem sua parcela de contribuição: você, seu filho e a escola. Por isso, antes da cobrança, pergunte-se: a família tem feito direito a sua lição de casa?


    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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