Quarta-feira, 18 de outubro de 2017
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Mensagens poderosas

Por Carla Oliveira *


Algumas frases que os pais costumam dizer aos seus filhos no dia-a-dia podem ser interpretadas de uma maneira muito negativa pelos pequenos, afetando até mesmo sua personalidade.

"Eu sabia que você iria mal nessa prova. Eu te avisei. Você não faz lição, não estuda, não se organiza. É nisso que dá ser assim". A frase acima representa o desabafo de uma mãe cujo filho não mostra interesse pelos estudos, deixando-a muito preocupada. Aparentemente, não há nada de errado no fato da mãe querer expressar seu desapontamento para o filho. O que ela não imagina é que esse não é o jeito certo para se fazer isso.


Tal declaração pode fazer a criança pensar que, no fundo, ela é uma inútil, que não faz nada direito, que só traz aborrecimentos. Com o tempo, essas idéias podem acabar sendo incorporadas à sua personalidade, marcando sua vida para sempre. De tanto a criança escutar que é assim, ela acaba agindo assim, porque ela ainda não tem força suficiente para contestar tal idéia. Inconscientemente, a criança passa a atender às expectativas dos pais: "eles falam que eu sou burra, então eu devo ser burra mesmo".


Sem perceber, os pais estão o tempo todo implantando mensagens na cabeça de seus filhos, como se fossem sementes que vão brotando, crescendo, até fazerem parte do que a criança realmente é. É claro que os pais não fazem isso com intenção de prejudicar os filhos. O que acontece é que muitos não sabem que têm força para alcançar o inconsciente de seus filhos e influenciá-lo com tanta intensidade.

Com as antenas ligadas

A mãe está na sala, esperando o marido chegar do trabalho. Eles vão sair para jantar. A mulher já está ficando impaciente, quando o telefone toca. É ele, avisando que vai ter uma reunião até tarde e terá que cancelar o jantar. Desapontada, irritada, a mulher vira-se para a filha e diz: "Os homens são todos iguais, filha. Não se pode confiar neles".


Por mais que, naquela hora, a menina não entenda direito o que a mãe quer dizer, ela acabará construindo em seu inconsciente uma imagem negativa dos homens. Isso poderá afetar seus relacionamentos no futuro, fazendo com que ela tenha uma dificuldade muito grande em confiar no gênero masculino. Tudo o que acontece com uma pessoa fica registrado em sua mente, mesmo que ela não se recorde, transformando seu modo de ver a vida.


Não pense que isso só acontece quando você fala diretamente com seu filho. Mesmo quando você está apenas batendo papo com a vizinha, comentando as travessuras do seu pequeno, ele está lá, de antenas ligadas, captando mensagens. Não duvide da capacidade auditiva das crianças! Quando o assunto lhes interessa, elas são capazes de prestar atenção, ainda que estejam na sala, jogando videogame. Por isso, muito cuidado ao dizer: "Ah, meu filho é uma peste. Só faz bagunça, desobedece. Não sei mais o que fazer com ele".

Aprenda a fazer do jeito certo!

A seguir, a psicanalista Priscila de Faria Gaspar* analisa uma série de frases que os pais costumam dizer a seus filhos e explica que tipo de mensagens negativas elas podem gerar. Priscila também ensina como transformar tais mensagens em coisas positivas. Aproveite as dicas a seguir para melhorar a comunicação entre você e seus filhos!


"Bem que eu te avisei que isso ia acontecer, mas você nunca me ouve. Agora você que resolva isso sozinho".


A criança tem a impressão de que o adulto, em sua "onipotência", tem poder sobre os acontecimentos futuros, podendo prevê-los. Isso faz com que ela se sinta impotente e dificulta seu amadurecimento. Além disso, ela sente-se inadequada ("você nunca me ouve") e desamparada ("resolva sozinho"). Em certos casos, muito raros - felizmente - a criança pode desligar-se psiquicamente dos estímulos auditivos com frases do tipo "você nunca ouve". Ocorre uma espécie de surdez por conversão psíquica, sem que haja qualquer tipo de lesão nos ouvidos ou na porção neurológica correspondente à audição. O termo "nunca" deve ser evitado, assim como outras generalizações. É importante que os adultos mostrem que estão descontentes com aquela situação específica e não com a criança e tudo o que a envolve. É melhor dizer: "Parece que você não me ouviu, mas eu avisei antes. E agora, o que podemos fazer para resolver isso e evitar que ocorra novamente?".


"Por que você não tenta ser mais educado, como seu irmão?"


Essa frase pode provocar sentimento de inadequação. A criança sente-se humilhada quando é comparada com outros e rebaixada, principalmente se for em público. Muitas vezes essa fala dos pais é assimilada como um rótulo que diferencia a criança de seu suposto "adversário". A partir daí, a falta de educação passará a ser uma forma da criança se expressar para marcar sua identidade e o quanto ela é diferente do irmão. É interessante, num momento de conversa, expor o assunto sobre comportamento e educação, mostrando que as pessoas bem educadas são melhor aceitas na sociedade, que todos gostam de ser tratados com educação e respeito, etc. Uma vez exposto o assunto, pode-se até citar o irmão. É importante enfatizar que todas as pessoas são diferentes e que seu filho também é bom em uma série de aspectos, para que compreenda que não está sendo rejeitado, tampouco precisa fazer desse comportamento a sua "marca registrada".


"Você é um pestinha mesmo, só me desobedece e faz bagunça! Haja paciência!"


A afirmativa "é um pestinha" e a generalização "só me desobedece e faz bagunça" também rotulam a criança, que se sente inadequada e não amada. Pode trazer dificuldades de estabelecer vínculos afetivos no futuro, pois com a auto-estima baixa ela não se considera digna de ser amada. A forma de evitar isso seria dizer: "Não gosto quando você me desobedece. Também não gosto dessa bagunça. Estou muito bravo e sem paciência. O que vamos fazer para resolver isso?".


"Eu sabia que você iria mal nessa prova. Você não faz lição, não estuda, não se organiza. É nisso que dá ser assim".


Essa frase denota novamente a onipotência e a previsão do futuro pelo adulto. A criança está sendo rebaixada e sente-se fracassada. Se introjetar essa fala, pode tender ao fracasso para o resto da vida. Em substituição, seria interessante dizer: "Tenho certeza de que você pode ir melhor se for mais organizado e estudar. Seria bom começar a planejar isso para a próxima prova". Além disso, é importante estar atento para os aspectos emocionais. Na maior parte das vezes, a criança vai mal quando existe algum conflito muito difícil - pode ser na escola ou em casa - e a dificuldade em estudar é apenas um sintoma do que ela está vivendo nesse momento. Em certos casos, é necessário procurar auxílio psicopedagógico para verificar o que está realmente ocorrendo.


"Estou muito decepcionada com você, nunca pensei que você pudesse fazer uma coisa dessas".


Dependendo do contexto, essa frase pode apenas refletir os sentimentos do adulto no momento. Mas se for usada para pequenas coisas e com freqüência, leva ao sentimento de que a criança não é o que os pais desejavam, ou seja, provoca sentimentos de inadequação e de rejeição. É importante lembrar que, durante muitos anos, a criança deseja atender às expectativas dos pais. Essas expectativas devem ser mais ou menos claras e, obviamente, dentro de um limite da realidade. Exigências absurdas, como querer que ele seja sempre o primeiro da classe ou o melhor esportista, por exemplo, tendem a aumentar a frustração. Existem inúmeros casos de adolescentes deprimidos porque não são o que os pais esperam, quando, na verdade, as expectativas dos pais é que são altas demais.


"Sua mãe trabalhou o dia todo, está cansada, por que você não tenta ser mais compreensivo e pára de fazer bagunça?"


Dependendo da idade da criança, ela poderá compreender isso. No entanto, se é muito freqüente e se nunca a mãe está disponível, a criança poderá sentir que não é amada. "Mamãe tem tempo para o trabalho e não para mim. Gosta mais do trabalho do que de mim" é o que uma criança pequena entende. Sendo uma situação ocasional, a criança entenderá e, mesmo frustrando-se momentaneamente, a partir daí aprende que a mãe também tem limitações e que precisa ser respeitada.


"Eu sei o que é melhor pra você, por isso se eu digo que você não vai, você não vai e ponto final. Quando você crescer, vai me dar razão".


Há momentos em que essa fala apenas reflete a realidade, mas muitas vezes a criança precisa ser ouvida para acreditar que sua própria opinião também conta. Até mesmo porque para desenvolver opinião própria e ter confiança nisso, terá de treinar de alguma forma. Se os pais sempre têm razão e sempre sabem o que é o melhor, é como se a criança nunca fosse capaz de saber o que é bom para ela, tornando-se insegura e indecisa. Incentivar os filhos a escolher e a dar opinião é importante para o amadurecimento. No entanto, as escolhas que devem ser deixadas nas mãos das crianças são aquelas que não ultrapassam limites de segurança física nem as regras de convivência.


"Não faça assim! Você quer que as pessoas pensem que eu não te dou educação? Olha só, está todo mundo olhando pra você. Que vergonha!".


Além de fazer com que se sinta humilhada, leva a criança a valorizar demais a opinião alheia. É importante conversar sobre a educação e o comportamento particularmente, nunca em público. Essa fala pode levar a criança a ter vergonha de si mesma e de se expressar espontaneamente, podendo tornar-se um adolescente retraído e com dificuldades de se relacionar.


"Da última vez, eu disse que só iria te levar ao parque se você se comportasse. Como você não se comportou, não vou te levar mais. Você tem que aprender a lidar com as conseqüências do que faz".


O que é se comportar? Esse conceito está bem claro para a criança? Provavelmente não está nem para a mãe. Assim, deveria ser conversado antes o que especificamente a criança não poderia fazer ou deveria fazer, ou seja, ter regras claras. E, uma das regras pode ser a do castigo: "como você não agiu como combinamos, não irá ao parque". Se isso foi combinado, deve ser cumprido, caso contrário as regras deixam de ter qualquer valor. Já o uso da palavra "comportamento", genericamente, não deixa claro o que se espera da criança, por isso não deveria implicar em castigo. No exemplo acima pode ficar a dúvida quanto ao que deveria ser feito, ou ao próprio valor da criança. Será que a mãe não disse isso porque tinha outras coisas para fazer e não queria mesmo ir ao parque? Esse tipo de argumento fica muito vago, gerando insegurança e desconfiança, podendo levar a criança a se questionar: "O que mamãe espera de mim? O que devo fazer?".


Comentário:    
       
Fernanda Tribst 27 de April de 2011 | 12h 51

Este artigo é fantástico! Acredito muito no poder da palavra e se impacta para o mundo dos adultos que dirá no mundo das crianças. Como bem explicado no inicio do texto, as mensagens sao gravadas diretamente no subconsciente das crianças e no desenvolver da vida reaparecem como grandes dificuldades. Se pararmos para lembrar da nossa infancia, de algum amigo de escola, de uma professora ou de algo que nossos pais nos disse e nos marcou podemos perceber como isso impactou na nossa vida, sendo positivo ou negativamente. Daí a importância de tratar uma criança com igualdade e respeito, e de os pais adotarem uma postura consciente, de se auto-educar para depois poderem educar as crianças! Parabéns pelo texto!!

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