Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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Ensinando a pensar

Por Norma Leite Brandão *


O que é mais importante em uma escola: matérias e conteúdo ou que o aluno aprenda a pensar?

Com tantas opções de escolas e propagandas que parecem não diferenciá-las, os pais vêem-se diante de inúmeras dúvidas. O que levar em conta quando se fala de ensino? O que vale mais: a escola dos conteúdos, cuja meta principal é o ensino de conceitos, com uma pesada carga de informação ou aquela que privilegia o pensar, o refletir do aluno?


Esse questionamento ocorre porque as famílias demonstram incoerências e mudam sua postura ao longo dos anos. Quando as crianças são pequenas, os pais se encantam com propostas de ensino em que seu filho se expresse, busque respostas, questione. À medida em que o tempo passa, começa surgir uma espécie de desconforto: "onde estará o conteúdo? Será que essa escola preparará meu filho para o vestibular? O colégio era ótimo quando meu filho era pequeno, mas agora, não atende às necessidades" dizem os pais.

Pensar no futuro é refletir sobre o presente

O que significa preparar bem uma criança ou adolescente para o mundo que virá? O que é prioritário? Para responder a isso, não é necessário nenhum exercício de futurologia. Simplesmente leve em conta o mundo de hoje, com suas velozes e profundas transformações e o que ele tem exigido de todos, pessoal e profissionalmente. Não se esqueça de que educação é um processo gradativo e a longo prazo. O que for plantado, desde cedo, germinará posteriormente. Por isso, é importante que haja uma certa coerência, ao longo dos anos, quanto a aspectos básicos.



A partir de uma determinada fase da vida de seus filhos, os pais começam a se preocupar com o futuro. A escola, embora seja o momento inicial desse percurso, representa a base do que virá posteriormente e o mercado de trabalho torna-se uma das grandes preocupações das famílias. Quando procuram por bons profissionais, as empresas esperam: autonomia, flexibilidade, rapidez na busca de soluções, criatividade, dinamismo, iniciativa, espírito de liderança, trabalho em equipe, experiência prática na área de atuação, persistência, visão geral de outras áreas, fluência em idiomas, conhecimento tecnológico, entre outras tantas. Ufa! São palavras que delineiam um profissional quase perfeito.


A maioria dessas expressões não remete ao conhecimento acadêmico, formal, em que o volume de conteúdo seja o ponto de referência. Mesmo porque, mais importante do que a informação propriamente dita é saber que o profissional tem condições de chegar a ela. A escola deveria ser o espaço para desenvolver habilidades de pesquisa, que abrangem o onde e o como buscar, a leitura crítica e eficiente, selecionando dados, a capacidade de estabelecer relações, comparações, deduções. Enfim, habilidades que tornem seu filho autônomo na busca pelo conhecimento.

A capacidade de encontrar soluções

As mudanças ocorrem num ritmo veloz e exigem dos novos profissionais posturas que atendam às transformações. Estes devem ser flexíveis, rápidos, criativos, dinâmicos. A estrutura escolar deve propiciar espaço para propostas e atividades diferenciadas, em que os alunos vivam experiências multidisciplinares, raciocinem criticamente sobre os conteúdos, aprendam a solucionar problemas e, principalmente, acreditem que são agentes principais no processo. Traduzindo: a escola deve possibilitar que crianças e jovens reflitam sobre sua realidade, façam perguntas, busquem respostas e proponham alternativas de ação. Viver é desatar nós, portanto, teoria e prática não podem se desvincular e necessitam estar voltados para o real.

Vivendo em sociedade

Na análise do perfil do profissional, expressões como trabalho em equipe, liderança e bom relacionamento são também fundamentais. De nada adianta ter conhecimento se não se sabe conviver, partilhar, crescer junto com o outro de forma salutar. E conviver com o outro é algo complexo e desafiante. Significa lidar com a diversidade, ter jogo de cintura, perceber momentos e situações oportunas, saber ouvir, calar e a hora certa de se posicionar. Esse é um longo e difícil percurso a ser realizado pelas escolas, já que vivemos numa sociedade que privilegia o individualismo. Com a inversão de valores e a massificação, a tarefa de perceber as especificidades do outro e - com a diferença - somar e crescer, parece ser um sonho distante.


Mas com certeza essa é uma meta fundamental para que haja transformação do mundo em que vivemos, que possui tantas distorções e desigualdades. Por isso, na busca por escolas de boa qualidade e com visão de futuro, leve em conta o quanto ela auxilia crianças e adolescentes a se relacionar, em que medida faz com que percebam sua importância no crescimento do outro e vice-versa. Escolas que tenham um braço em ações sociais possibilitam, também, o engajamento dos alunos em projetos e o reconhecimento da sua contribuição.

Informação ou formação

A sociedade atual pede por sujeitos pensantes, críticos, atuantes em diversos setores, comprometidos social e politicamente. Escolas que privilegiam o conteúdo apenas do ponto de vista do volume de informações, não contribuem para que o aluno se acostume a refletir com consistência, a questionar e a buscar mudanças no sistema vigente.


Antes de esperar ou exigir o conhecimento específico, reflita sobre a maneira como a escola o desenvolve. O segredo parece estar no modo como lidam com o aprendizado, nas possibilidades diferenciadas que apresentam aos alunos, na abordagem de inúmeras formas de expressão, na valorização do potencial de cada um e, principalmente, nas oportunidades que oferecem para o desenvolvimento do espírito crítico. Disso resultará um trabalho consistente, antenado com o presente e com as preocupações do futuro.


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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