Quarta-feira, 28 de junho de 2017
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Seu filho não é seu aluno

Por Norma Leite Brandão *


Ajudar na lição de casa não costuma ser uma boa conduta. Saiba até onde você pode ir e conheça o que deve ser cobrado da escola.

Bem, o ano escolar começou mesmo! E os pais só se dão conta disso realmente quando as fatídicas lições de casa começam! Com elas, vem o corre-corre do cotidiano, a dificuldade em lidar com o tempo e, muitas vezes, o desinteresse e a desorganização das crianças.


Afinal, essa tal de tarefa é mesmo fundamental? Bem, os especialistas da área dividem suas opiniões. Há os que acreditam que criança aprende na escola e que a lição, nos moldes tradicionais, só joga para a família responsabilidades que são do professor. Há, também, aqueles que crêem que só o trabalho dentro da sala de aula não dá conta de tudo e que se faz necessário um momento posterior que complemente e sistematize o conteúdo estudado.


Uma coisa, porém, é indiscutível: crianças precisam adquirir, ao longo dos anos, o hábito do estudo. Com autonomia e responsabilidade. Mais do que o conteúdo propriamente dito, a função principal das tarefas deveria ser a de propiciar elementos que as mobilizassem e as fizessem, longe da escola, desenvolver o saudável costume de estudar. Com independência e prazer.


Hum... mas é aqui mesmo que a coisa pega, e pega feio! Independência? De que forma, se alguns pais parecem "baratas tontas" procurando suprir o que falta nas tarefas? Prazer? De que jeito, se as lições são quilométricas e a moçada está ligada em coisas bem mais agitadas e "coloridas"?


Quando o assunto é lição de casa há uma questão que deve ser priorizada e olhada com carinho: a relação entre pais e filhos. Se a coisa não caminha bem no cumprimento dos deveres, tudo pode se complicar ainda mais se houver desgaste de ambas as partes. Nesse sentido, talvez, algumas pistas concretizem e possam auxiliar os pais.

A parte que cabe à escola

Em primeiro lugar, é importante que se reforce sempre: olhar pela lição de casa é dever da escola. Isso significa dizer: ao professor cabe não somente a tarefa de passar a lição, mas a de orientar, de dizer ao aluno o que dele se espera.


Pertence, também, a ele a fixação de prazos de entrega e a devida cobrança. Aqui vale lembrar: esse é um caminho longo, com idas e vindas, com alguns contratos estabelecidos e procurando perceber as necessidades e ansiedades de cada um. É um processo gradativo, mas veja bem: nenhuma palavra tem mais força do que a do professor que possui um vínculo afetivo estabelecido com o grupo. Por isso mesmo é ele que precisa assumir o comando das tarefas.


Nesse sentido, a cobrança significa mais do que dar um simples visto. É retomar os conceitos no coletivo, responder às possíveis dúvidas e, principalmente, dar espaço para se enxergarem as diferentes formas de resolução de cada um.


Pois bem. Tocamos num ponto fundamental. Para que isso aconteça, é necessário que as lições sejam bem mais do que meros exercícios enfadonhos e desprovidos de sentido. Principalmente nos tempos atuais, em que os interesses de crianças e jovens são de outra natureza, em que outros apelos são tão fortes!


Hoje, mais do que nunca, a lição não pode ser vista como algo que mantenha o aluno ocupado, simplesmente. Ela precisa ser desafiadora o suficiente para que ele se envolva e busque suas saídas de resolução. E isso muda tudo, não é verdade? Desse ponto de vista, bem mais importante do que o volume, dar a lição é proporcionar instrumentos para pensar.

A parte que cabe aos pais

Pai é pai. Não é dentista, médico, engenheiro, muito menos professor. Tudo o que um pai não deveria ser é professor nesses momentos. E o que é ser pai em relação às lições? É proporcionar local e material adequado de estudo. É lembrar ao filho, dependendo da idade, que há uma tarefa a ser feita. É ajudá-lo a se organizar, para que não se perca em sua agenda. É estipular um tempo certo e um horário determinado, de preferência fixo, diário, para que a criança crie o hábito. Tempo longo? Não. Se o que está em jogo é a disciplina e a freqüência, o estabelecimento de um período curto será mais eficaz e produtivo.


Muitas vezes, esse período pode não ser suficiente. Quando isso acontece, vale investigar os motivos. Eles podem se originar numa agenda mal organizada por parte da criança. As tarefas são anotadas, mas cumpridas em cima da hora. Um desastre! Uma correria para tapar buracos!


Pode ocorrer, no entanto, um volume grande de trabalho e, nesse caso, mesmo a mais organizada das crianças sente o peso. Quando isso acontece, nada como procurar a escola! Qual o objetivo da lição? O que espera o professor ao transferir uma grande parte do conteúdo para a família?



Desconfie de uma proposta pedagógica em que você, pai, seja co-autor de trabalhos. Se o discurso da escola prega o desenvolvimento da autonomia, pais e mães precisam ter bem claro até onde vai o seu papel. Auxiliar os filhos, indicando uma fonte de pesquisa, conversando sobre um assunto, de maneira informal, é completamente diferente de sentar-se em frente ao computador e realizar o trabalho por eles. Da mesma forma, passar os olhos na resolução de um problema difere de sentar-se à mesa e ensinar a técnica operatória da divisão. Fuja disso! Mesmo porque muitas coisas são hoje ensinadas de forma totalmente diferenciadas do que no passado.

Lembretes que fazem a diferença

Seu filho não é seu aluno. Você tem uma escola com profissionais especializados para cumprir a função de professor. Por isso, procure, ao longo do ano, observar algumas atitudes básicas que zelam por sua relação com seu filho:


  • Cuide da auto-estima de seu filho.

  • Pais são seres infernais quando resolvem enxergar só o que falta. Na ânsia da perfeição, imbuídos de um desejo cego de fazer o melhor, podem errar a mão ao olhar as tarefas. Cobram tudo, absolutamente tudo. Da vírgula ao número mal traçado. Nesses momentos, deixam escapar frases que, ditas com freqüência, irritam e minam a auto-estima dos pequenos.

  • Espere a criança pedir ajuda, mas esteja sempre disponível.

  • Deixe de lado a ansiedade e o desejo de cobrir tudo, a todo instante, de monitorar os passos de seu filho. Mostre-lhe que está disponível, mas que esse é o território dele.

  • Não acredite que só porque seu filho já tem 12 anos já tem desenvolvida a sua autonomia no que se refere às tarefas. Nessa idade, a dispersão e o descompromisso se acentuam. Muitas vezes, a única coisa de que necessitam é de uma ajuda na organização para que não se percam com as datas e com o material.


    E para encerrar, lembre-se sempre: as crianças e adolescentes não buscam e não precisam, em casa, de um outro período escolar, com uma outra professora que é você. Nada disso. Se tal acontecer, é porque algo está fora do eixo, o que pode transformar a relação de pais e filhos um verdadeiro transtorno. Por esse motivo, vá com cautela ao sentir aquele desejo súbito de ajudar. Se errar a mão, a coisa poderá ficar feia, mas se sua ação for direcionada para um auxílio consciente e cuidadoso, só trará benefícios para ambas as partes.


    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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