Quinta-feira, 27 de abril de 2017
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É menina!

Por Carla Oliveira *


O médico já deu a notícia! Mas, antes de sair comprando roupinhas cor-de-rosa, descubra as maiores dificuldades que você terá de enfrentar ao educar sua filha.

Há quem diga que, se não fosse o fato de ambos pertencerem à espécie humana, homens e mulheres poderiam ser considerados criaturas originárias de planetas distintos. Exageros à parte, não se pode negar que as diferenças entre os sexos são realmente muito grandes. E não estamos falando apenas de diferenças culturais, mas também biológicas.


Essas diferenças entre meninos e meninas aparecem logo após o nascimento. Elas crescem mais depressa, começam a falar mais cedo e sua capacidade motora se desenvolve mais rapidamente. Além disso, as meninas geralmente deixam de usar fraldas antes dos meninos e também têm a pele mais sensível - por isso gostam mais de carinho e são mais afetuosas.


Mas, educar uma menina não é tão fácil quanto parece. O sexo feminino está rodeado de preconceitos e estereótipos que dificultam e até prejudicam o desenvolvimento das garotas. Apesar de não serem mais consideradas o "sexo frágil", elas ainda precisam - e sempre vão precisar! - de uma atenção especial.

Uma verdadeira princesa!

É natural que os pais reajam de forma diferente quando sabem que terão um menino ou uma menina. O problema é a imagem que eles criam do bebê - que ainda nem nasceu! - totalmente baseada em estereótipos. Os pais esperam que seu garoto seja forte, corajoso, inteligente. E que sua garota seja meiga, bonita e bem comportada. Muitas dessas expectativas são influenciadas por idéias difundidas na cultura humana sobre o que é ser homem e o que é ser mulher.


Cada criança tem sua personalidade própria e os pais devem ter o cuidado de não querer encaixar sua filha em modelos que eles idealizam. Para eles, pode ser importante que sua filha seja bonita, sociável, independente, confiante - como eles acreditam que uma menina deva ser. Mas, é preciso entender que, mesmo com o estímulo e a influência dos pais, cada criança é um ser único, com características próprias. E, ainda que essas características não sejam aquelas com as quais os pais sonharam, isso não significa um fracasso.


Tais expectativas podem prejudicar muito a criança. No enxoval de uma menina, é difícil não encontrar dezenas de fivelas, brinquinhos e roupinhas cor-de-rosa. No fundo, os pais desejam que ela seja um verdadeira princesinha, delicada e bonita. Isso acaba reforçando a "ditadura da beleza" que vivemos atualmente e pode afetar seriamente a auto-estima da menina caso ela não se encaixe nos padrões esperados: magra, alta e de cabelos lisos. Não é a toa que muitas mulheres se submetem a regimes absurdos e até desenvolvem doenças como anorexia e bulimia.


Mesmo sem perceber, os pais acabam reforçando também muitos outros estereótipos. As meninas costumam receber de presente bonecas, bichinhos de pelúcia, conjunto de panelinhas e estojos de maquiagem. Por que não comprar bloquinhos de madeira, carrinhos e até mesmo uma bola de futebol? Isso não significa que os pais devam direcionar os interesses da sua filha, mas mostrar opções diferentes das convencionais para que ela desenvolva seus próprios gostos.

O direito de ter prazer

A sexualidade das meninas sempre foi negligenciada. Se ela, por curiosidade, tocasse em seus órgãos genitais, era duramente repreendida pela família, ao mesmo tempo em que os meninos eram estimulados a mostrar seu pênis para o tio ou para o primo, como prova de sua masculinidade. O tabu em torno da sexualidade feminina era tão grande que, mesmo hoje, muitas mulheres adultas nunca sequer visualizaram sua própria vagina, como lembra a psicóloga Gisela Preuschoff, autora do livro
"Criando Meninas"
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A autora defende que os pais devem ajudar sua filha a entender o próprio corpo e até mesmo oferecer um espelho para que ela possa conhecer seu órgão sexual e entender como ele funciona. Eles podem explicar, por exemplo, por qual orifício nascem os bebês e por onde sai o xixi. Isso será muito útil para que a mulher, no futuro, tenha uma vida sexual saudável e prazerosa, livre de antigos preconceitos.

Na escola: méritos e desafios

Em geral, as meninas costumam se adaptar mais rapidamente à escola e aprendem logo a ler e a escrever. Espera-se da menina que ela seja boa aluna. Mas o problema, segundo a Gisela, é que os pais não costumam enxergar as boas notas da filha como resultado de um bom rendimento intelectual, mas sim de um grande esforço. Isso pode levá-las a não acreditar em suas potencialidades.


Por outro lado, as garotas costumam ter um desempenho mais fraco em matemática do que os garotos, conforme indicam pesquisas descritas no livro. No entanto, a psicóloga destaca que não se sabe ainda se isso está relacionado a alguma diferença no cérebro ou se é apenas uma crença da sociedade que faz com que as próprias garotas se sintam menos capazes para lidar com números. O fato é que as meninas realmente acabam se afastando da área de exatas - numa turma de engenharia, por exemplo, conta-se no dedo o número de mulheres.


De acordo com o livro, as meninas aceitam mais facilmente as dificuldades, ao invés de encará-las como um desafio e tentar superá-las. Por isso, Gisela defende que os pais devem encorajar sua filha a não desistir, mas sim trabalhar na resolução de um problema. O interesse pela matemática, por exemplo, pode ser estimulado de diversas formas. Peça para ela comprar o pão na padaria e ensine-a a calcular o troco. Se vai comprar um móvel novo para o quarto, encarregue-a de medir o espaço e concluir se o móvel vai caber ou não. Quer preparar uma receita? A função dela será separar os ingredientes na quantidade certa!

Nem melhores, nem piores

Os homens sempre reclamam que as mulheres não sabem estacionar o carro e não conseguem entender por que elas demoram tanto para ansalisar o guia de ruas à procura do caminho certo. As mulheres se sentem ofendidas e os acusam de machistas. Segundo o livro "Criando Meninas", nas mulheres o lado direito do cérebro se desenvolve menos do que nos homens, e por isso elas têm mais dificuldade em imaginar objetos sob várias perspectivas e se orientar no espaço.


Portanto, a queixa masculina não deixa de ter uma certa razão. Por outro lado, as mulheres não podem se sentir incapazes à frente do volante. Sim, os homens costumam ser melhores nessa função, mas isso não significa que elas não possam aprender a manejar mapas com perfeição ou realizar manobras complicadas. Tudo é uma questão de interesse e treino. O problema é que muitas mulheres se convencem de que nunca serão boas nisso, pois é o que todos lhes dizem, e param de tentar. Aí é que está o erro: mais uma vez, o estereótipo acaba falando mais alto!


Em contrapartida, as mulheres levam vantagem em outros aspectos. O feixe de fibras nervosas que liga o lado direito ao lado esquerdo do cérebro é bem maior nas mulheres do que nos homens. Por isso, as mulheres usam os dois lados do cérebro simultaneamente e tem mais habilidade para prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo. Já os homens usam um lado de cada vez e precisam se concentrar em apenas uma tarefa.


Durante muito tempo, as características e os valores masculinos predominaram na sociedade, enquanto as peculiaridades femininas levaram as mulheres a ganhar o estigma de frágeis e inferiores. Hoje em dia, isso mudou e se discute muito o papel da mulher e sua contribuição para a sociedade, apesar do machismo não ter desaparecido por completo.


O fato é que as mulheres não são piores, nem melhores do que os homens, são apenas diferentes. Constatar as diferenças que existem entre os sexos não serve para alimentar uma guerra que, além de cansativa, é inútil. Serve apenas para que meninas, assim como os meninos, tenham suas necessidades particulares atendidas e possam se desenvolver integralmente, sem que preconceitos e falsos argumentos as prejudiquem. Ou, como enfatiza Gisela Preuschoff, sem que as meninas se tornem exatamente aquilo que os pais e a sociedade esperam delas - como uma "profecia que se auto-realiza".


Entender as premissas culturais e também as características biológicas que nos levam a formular os valores a respeito das mulheres, é fundamental para educá-las. A visão dos pais e seu comportamento em relação ao gênero feminino é transmitido às meninas, definindo a idéia que elas próprias fazem de si. Somente ao ter consciência desse processo, os pais poderão responder à pergunta: que tipo de mulher você quer que sua filha se torne?


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