Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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A primeira namorada

Por Norma Leite Brandão *


Ele chega em casa com os olhos brilhantes. Lição? Banho? Nem pensar! Cadê o telefone? Será que ela está em casa? Ela é mais alta, corpo em desenvolvimento, sensualidade latente. Voz rouca ao telefone...mas tem, pasme, a mesma idade dele, dez anos!

A mãe percebe a movimentação do menino: implora para que cumpra sua rotina da noite. Mal escutando, retira da mochila um punhado de papéis, bilhetes, juras de amor, entregues por intermédio de um amigo, na hora do recreio. Liga o som e canta, com o conjunto de sucesso, músicas em inglês - românticas e doces. A mãe sorri, com um misto de fascínio e de preocupação.


O telefone toca e, com o coração disparado, ele atende. A porta do quarto é fechada; a mãe tenta escutar, procura inteirar-se do que ocorre lá dentro. Difícil.... Resolve bater à porta: hora do banho, hora da lição! Hora de parar com essa bobagem toda! Ele ainda é um moleque..


Essa mãe tenta, inutilmente, se convencer da ingenuidade da situação. Prefere achar que ele está só encantado com a atenção que recebe da garota mais disputada da classe. De alguma forma se percebe herói, defende sua garota na escola, escreve cartas e bilhetes prometendo o impossível.


Afinal, é sua primeira paixão. Paixão de criança. Quem não a teve? Fosse pela professora ou pela amiguinha de classe, ela faz parte do repertório de todos. Será que é isso mesmo? Nada de errado? Nada com que se preocupar?

Parada obrigatória...

Não há mãe que, num primeiro momento, não sinta a beleza e o fascínio de ver seu filho encantado com um sentimento que faz bem, que alimenta a auto-estima, principalmente na fase em que tudo é descoberta e parece dar colorido, luz, fantasia. A preocupação surge quando se pensa na antecipação, na intensidade e na velocidade com que tudo acontece.


Como é mesmo que isso funciona? Qual foi o caminho percorrido para que essas duas crianças se dissessem, hoje, apaixonadas? Na realidade, não houve um caminho, houve muitos, vindos de diferentes direções.



Representam tudo o que o mundo moderno nos oferece por meio da tecnologia e da informação: outdoors, jornais, revistas, cinema, internet, televisão. Porém, mais do que os meios propriamente ditos, parece estar em discussão a forma como tudo é veiculado e percebido pelas crianças, jovens e adultos.

A era do descartável

Na era do descartável, assiste-se à garotinha de três anos rebolando no programa de sábado à tarde. Ela mexe seu corpinho, o apresentador aplaude, os pais sorriem, orgulhosos e seu filho assiste.


Nesse mundo globalizado, você acessa a internet, entra na rede e depara-se, subitamente, com um garoto de treze anos buscando aventuras em salas destinadas a pessoas de cinqüenta anos. Seu vocabulário é claro e pesado e você assiste.


Na virada do milênio compra-se o prazer sexual via telefone, por meio de anúncios veiculados diariamente na TV; apresentadores de programas com altos índices de audiência exploram, diante dos olhos de todos, barbaridades ou assuntos íntimos da vida de nomes conhecidos do grande público, segredos de alcova, preferências sexuais e seu filho não desgruda.


Ora gargalha, ora arregala os olhos e, enfim, sem muita reflexão, começa a acreditar que tudo pode ou deve ser assim mesmo - descartável, chocante, violento e invasivo. São os filhos da tecnologia e da informação.


Não, não se trata caçar vilões responsáveis pelo doce sentimento que agora experimenta pela garota. O que ele vive é bonito porque é terno, repleto de fantasia. Trata-se, no entanto, de deixar claro que esse mundo está antecipando o que, no passado, acontecia bem mais tarde. Meninos de nove, dez anos jogavam bola, soltavam pipa, brincavam de médico, sim, mas tudo era realizado de forma lúdica, com sabor e gosto de molecagem.

Em busca do lado mágico da vida

Há algumas reflexões, no mundo de hoje, às quais os pais não podem se furtar. Existe uma diferença entre sentir-se fascinado por aquilo que dois garotos sentem e o incentivo consciente de um namoro entre crianças dessa faixa etária.


Incentiva-se quando se dá dinheiro para que ele compre presentes semanais para a garota, quando se acha bonito que os telefonemas durem uma, às vezes duas horas. Quando eles se falam às onze horas da noite e os pais o permitem. Não se consegue estabelecer limites.


Por que motivo determinados pais desejam que os filhos cresçam tão rápido? Por que esse orgulho ao vê-los agir como adultos? O que se busca quando se evita dizer o não de que muitas vezes, eles necessitam? Cumplicidade? Aproximação?


Esse bravo herói, essa gentil princesa, que reproduzem o encantamento dos contos de fadas, das novelas a que assistem, só estão, nesse momento, procurando o lado mágico da vida. Por que também não lhes mostrar a magia existente em outros papéis?

Garoto, onde está sua bola?

Não, não bata de frente, ouça o que eles têm a dizer. Mas não deixe de, sensata e firmemente, pontuar o que lhe interessa e colocar regras e limites. Ajude-os a encontrar o equilíbrio. Permita-lhes perceber que, além dessas personagens, eles são mais tantas outras, guerreiros que lutam bravamente contra as injustiças, fadas que preparam poções mágicas, aventureiros que desbravam as selvas, em busca de tesouros perdidos.


Você, hoje, é um adulto. Sabe da importância da fantasia em qualquer idade. Tem consciência de seu dever, como educador, de não lhes tirar esse sonho, mas de ampliá-lo com carinho, firmeza, sensatez. O prazer é feito de muitos cheiros, cores, sons.


Não permita que o reduzam àquilo que move, hoje, o mundo. Não se omita diante do que a mídia insiste em lhe vender de forma vil, pequena. Essas crianças precisam de mais, de muito mais! Merecem viver o sonho em sua plenitude pois são os seus filhos, a continuidade, aqueles que podem e devem, um dia, transformar o que aí está.


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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