Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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Meu filho já tem 6 anos...

Por Norma Leite Brandão *


A primeira série começa, repleta de sonhos para pais e filho. Os meses passam e algo começa a acontecer na rotina daquela criança. Reluta em ir à escola, inventa desculpas, chega até a ter febre! Ele passou nos testes, estava apto! O que não está funciona

Essa é uma história antiga. Você, se não a viveu, já ouviu algo semelhante. É de domínio público o calvário a que se submetem pais e crianças ao chegar o segundo semestre, quando se realizam os inúmeros testes e entrevistas para a aprovação de alunos nas escolas particulares. São do conhecimento de todos, também, as histórias de insucesso de crianças na faixa de 6, 7 anos ao ingressar numa grande escola. Por que tudo isso ocorre?


Um pouco da história...


Parecem tão pequenos, tudo só está começando... Não, os pais sabem que tudo já começou, muito antes dos testes. Aquela criança passou por situações de aprendizagem desde seu nascimento. Momentos especiais e únicos. Sua história educacional teve início na concepção, passou por diferentes fases de aprendizado, desafios e conquistas fundamentais para seu crescimento. Os pais têm em mãos essa história, viveram seu processo, acreditam na capacidade de seu filho. Tudo isso é fato inquestionável. Então por que eles se repetem? Retroceda no tempo, relembre a peregrinação vivida quando, com seu filho ainda bebê, você visitou muitas escolas de educação infantil. Precisava de segurança, queria olhar tudo, fazer perguntas, conversar com pessoas. Após cuidadosa análise, a opção. Aquele bebê começava uma importante etapa de sua vida, a do viver num grupo mais amplo, fora da estrutura familiar. Longo e belo aprendizado para ele. Às vezes dolorido e difícil para os pais!!!

Final de ciclo

Seu filho foi crescendo e o vínculo dos pais com a escola de educação infantil ficou forte, intenso mesmo. Você e os primeiros professores viveram momentos de alegria e de tristeza, partilharam sonhos, tombos, choros e sorrisos, ansiedades, frustrações e conquistas! O ciclo, porém, chega ao final. Seu "bebê" já tem quase 6 anos! Nesse momento é comum um misto de sentimentos diversos, orgulho e pesar. Orgulho porque ele cresceu, venceu desafios, parece pronto para a caminhada que virá a seguir (e pede por ela!). Pesar porque os pais amam tanto aquela escola que os acolheu com carinho que chegam a expressar o desejo de que ela tivesse a continuidade. Como nem sempre é o que ocorre, surge o extenso leque de opções de escolas de ensino fundamental. Extenso e complexo.

Em busca de respostas

O que fazer para que sua escolha seja consciente e coerente? Que elementos observar? O que perguntar? A quem? É comum que os pais conversem com amigos e troquem informações a respeito de diferentes escolas. Nessa hora ouve-se de tudo. Por isso mesmo, nunca é demais alertar: a escolha é sua, mas quem viverá momentos importantes da infância e da adolescência no ambiente escolar é seu filho. Nem sempre amigos e pessoas queridas têm as mesmas crenças e ansiedades que você. Muitas vezes, tê-los como guias pode não ser uma solução, mas um problema.


"Crenças"... palavrinha importante neste contexto, não? O passo número um parece ser aquele em que pai e mãe sentam-se juntos para falar um pouco do que acreditam ser o melhor para seu filho. Que realidade familiar vivem e quais seus valores? Levem em conta o perfil familiar: democrático, autoritário? Descontraído, austero? Superprotetor ou preza a autonomia? Pensem, também, na forma como vocês lidam com questões como consumo, competição e espiritualidade.

A sintonia necessária

Refletir sobre esses assuntos é a base de tudo. O espaço em que a criança passará grande parte de sua vida, com seus amigos, precisa reproduzir valores da família. Sem isso não há parceria, cumplicidade, não há uma mesma estrada, fato facilmente detectado por esse pequeno aluno, sensível e inteligente, capaz de captar a falta de sintonia. Ele pode reagir ora com medo, ora com provocações, ora com insegurança. Os pais precisam estar conscientes de uma coisa: nosso sentimento em relação à escola não precisa ser explicitado por meio de palavras. Esses seres lêem nosso olhar, nossos sorrisos, percebem no ar nossa aprovação ou ironia e desagrado...

O que levar em conta

Quando se fala de valores, fala-se, entre outras questões, de um assunto polêmico nos dias atuais: qual o peso maior na hora da escolha, formação ou informação? Você preza o volume de informações ou acredita numa escola que priorize o desenvolvimento de habilidades? Espera um conteúdo extenso e entregue ao aluno ou acredita que ele pode e deve ser sujeito desse processo?
Leve em conta seu filho, suas características. Ele é tímido, disciplinado? Irrequieto, curioso? Questionador, extrovertido? Pense, também, em analisar o momento em que ele se encontra. Muitas vezes, uma criança vive situações extraordinárias de vida que exigem cuidados especiais dos profissionais que com ela atuarão: perda de entes queridos, dificuldades momentâneas na alfabetização, separação dos pais... São questões que a deixam mais fragilizada e que pressupõem uma atuação mais cuidadosa.


Qualquer que seja o caso, é importante que os pais visitem muitas escolas, conversem detalhadamente com coordenadores e confiram todos os seus espaços. É preciso que tentem de muitas e diferentes maneiras perceber a filosofia da instituição. Para isso, aqui vão alguns pontos que valem uma análise:


O que perguntar:

  • Como a escola lida com o erro?
  • Qual o tempo que o aluno tem para se desenvolver? Como é avaliado?
  • Como é feita a organização das salas? Quantos alunos por classe?
  • Como se trabalha com a dificuldade específica?
  • Como se trabalha a organização?
  • Como é a rotina?
  • Como a escola lida com a questão disciplinar?
  • Como a escola lida com assuntos polêmicos?


    Atendimento a pais:
  • Quem atende? Acesso fácil? Disponibilidade, acolhida.
  • Corpo docente: formação inicial, atualização, tempo para encontros e preparação de aulas.
  • Funcionários: quantidade, qualidade e tratamento dispensado aos alunos.


    O que observar:
  • Parte física: espaço, equipamentos, recursos tecnológicos e aparência.
  • Clientela: pessoas que fazem parte da comunidade escolar: alunos e famílias (relacionamento, nível socioeconômico, valores).
  • Aspectos funcionais: horário, proximidade, transporte, cursos extras.
  • Custo-benefício: valor da mensalidade, atividades extracurriculares, excursões, material didático de apoio.


    Recomendações:
  • Nada é definitivo. O importante é procurar fazer a escolha mais consciente e possível no momento. A crença da família faz com que a criança se sinta confiante, segura.
  • Nenhuma escola tem todas as qualificações, tudo pronto e acabado.
  • Ao olhar instalações, ambiente físico e recursos, procure saber de que forma as crianças os utilizarão.
  • Esteja atento para perceber as prioridades da escola e use, também, sua intuição para decidir.
  • Faça com que a criança também viva o processo. Embora caiba aos pais a escolha final, o processo auxilia a adaptação futura.
  • Visite muitas instituições. Peça para ver as salas em funcionamento, o material utilizado.
  • Converse com pessoas da comunidade escolar.


    Finalizando, lembre-se de que escola tem de significar vida, com tudo aquilo que ela nos traz: alegrias, medos, descobertas, lidar com o diferente, enfrentar desafios, receber encorajamentos. Enfim, escola tem de significar prazer pela busca do conhecimento, sensibilidade para a percepção de si próprio e do outro. Só assim cumprirá sua finalidade última, a formação de seres autônomos e cidadãos.


    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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