Quarta-feira, 18 de outubro de 2017
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Os meus, os seus, os nossos

Por Suzanna Amarante Levy *


Uma estrutura de família cada vez mais freqüente é aquela em que os parceiros já passaram por um casamento e tiveram filhos. E aí surge uma dúvida: como preservar a integridade emocional das crianças que estão vivenciando essa nova realidade?

Duas pessoas se conhecem, namoram, casam e...são felizes para sempre. Será? É claro, ninguém mais acredita em conto de fadas e as estatísticas revelam um número crescente de casais que se divorciam e, tempos depois, embarcam numa nova relação afetiva, deparando-se com alguns problemas.


Se a relação com o primeiro parceiro foi difícil, e agora, que você já tem filhos, família e ainda um "ex" para administrar? E mais: como se relacionar com os filhos, "ex" e família do seu novo parceiro? A situação nem sempre é fácil e exige sensibilidade de todos os envolvidos. É preciso conciliar as histórias do passado e dar boas vindas ao futuro. Dessa forma aumentam as chances de que todos saiam ganhando e se sintam mais felizes.


Nessa fase, a flexibilidade e a capacidade de adaptação dos envolvidos são testadas, pois no primeiro momento todos se sentem prejudicados. Os filhos se sentem traídos pelos pais que escolheram novos companheiros e ficam amedrontados diante desta nova realidade. Os "ex" sentem-se ameaçados e o novo casal ainda não sabe como administrar tantos filhos e, ao mesmo tempo, estabelecer uma boa relação com os antigos cônjuges.

Jogo de cintura em dose dupla

A pessoa divorciada que inicia uma nova relação não deve usar o passado para provocar ciúme no atual parceiro. Os efeitos negativos podem se voltar contra ela mesma e, se tiver filhos de um casamento anterior, estes poderão se tornar vítimas da desconfiança e do ódio gerados pelo próprio pai ou pela mãe.


Negar a importância de um casamento que terminou também não é a solução adequada. O seu parceiro atual pode deduzir que um dia ele também será desprezado.


O que fazer então? O melhor é dar ao novo parceiro segurança, deixando claro que a história vivida faz parte de seu "currículo", mas que o novo relacionamento é verdadeiro e você está "de corpo e alma" nele. Os pais devem estar conscientes de que o casamento pode ter acabado, mas que a paternidade é eterna. Devem ser muito cuidadosos para ajudar os filhos a viver esse momento de rancor e sofrimento.


Pessoas equilibradas, que mantêm atitudes coerentes, bem pensadas e elaboradas, são as grandes responsáveis pelas relações de harmonia entre os novos parceiros de seus ex-companheiros e seus filhos, facilitando principalmente a vida das crianças.


"Os filhos do meu segundo marido optaram por morar conosco na adolescência", diz Heloisa (que prefere não se identificar). "Quando nos casamos o mais velho tinha sete anos e o menor três. A mãe das crianças jamais interferiu na minha relação eles. Pelo contrário, era tão neutra que eu às vezes achava a sua distância um pouco exagerada. Talvez ela tivesse medo de causar transtornos para nós ou de prejudicar as crianças", conclui Heloisa.

Incluir é o segredo

Não há relação que resista quando alguém privilegia os próprios filhos e tenta sabotar os do outro. É importante que o novo parceiro tenha a capacidade de abrir espaço para que os filhos do companheiro façam parte da vida deles e compartilhem do amor e do carinho dos pais.


Carla Bellintani, de São Paulo, viveu essa história com seu segundo marido, Marco Spehar e conta: "Ambos vínhamos de um primeiro casamento, eu com uma menina de sete anos, ele com outros três pequenos que moravam com a mãe". Depois de algum tempo Carla engravidou e, quando estava entrando no terceiro mês, as três crianças do marido vieram morar com eles.


"É claro que nos desentendíamos em alguns momentos, afinal éramos muitos! Mas após seis meses de convivência as crianças passaram a me chamar de "mãe". A chegada do bebê, sem dúvida alguma, ajudou a unir definitivamente a nossa família", conclui.

Como lidar com as crianças

Filhos de pais separados não estão fadados a se tornar crianças problemáticas, mas sem dúvida, essa é uma situação que merece cuidado. Na maior parte dos casos, continuam morando com a mãe e é natural que sintam ciúmes caso o pai se case novamente. Não é nada fácil imaginá-lo em outro lar, dando amor e carinho a uma outra criança.


Se ele for esperto e sensível, saberá amenizar esses sentimentos negativos com pequenas demonstrações de atenção e carinho: telefonar com freqüência para a criança, freqüentar as reuniões da escola e levar para passear, por exemplo, são fundamentais para garantir um relacionamento saudável.


É importante, também, que essa criança tenha um "cantinho" na nova casa do pai para dormir ou estudar. Isso a ajudará a se sentir parte daquela família, mesmo morando em outro lugar.

Diferentes idades, diferentes atitudes

Quando a criança é pequena, em geral fica mais fácil conquistá-la. Na adolescência, o relacionamento em geral mostra-se mais difícil, pois os jovens tendem - naturalmente - a provocar, boicotar e fazer de tudo para "enlouquecer" o novo companheiro dos pais.


Não há uma regra rígida, mas em geral é possível diferenciar o comportamento das crianças por faixa etária:


  • de zero a cinco anos tudo o que estiver relacionado aos cuidados, como dar banho, trocar a fralda, alimentar ou levar para dormir, ajudam a aproximar a madrasta da criança, o que pode facilitar a convivência;

  • dos seis aos nove anos as crianças ainda tendem a ser receptivas e demonstram uma boa capacidade de adaptação aos "novos pais";

  • dos dez aos quinze anos o relacionamento pode ficar mais tenso e complicado, pois o adolescente é mais questionador e tem maior dificuldade de adaptação. Insistir numa falsa intimidade ajuda piorar as coisas. Assim, o melhor é tentar ganhar a confiança do jovem de forma sutil como, por exemplo, ajudando nos trabalhos escolares ou preparando o prato que ele mais gosta.

    Outra situação que merece atenção é a chegada de um filho comum. Os demais tendem a se sentir preteridos em relação ao bebê. Nesse momento o casal deve cuidar para fazer com que os filhos mais velhos se sintam incluídos e necessários nessa nova fase.


    Quanto à relação entre as crianças, não é aconselhável que os adultos interfiram. Na intenção de fazer com que sejam amigos, você pode tomar partido e acabar por separá-los ainda mais. Então tenha paciência, pois pode levar algum tempo mas eles acabam se entendendo.


    Uma boa dica é programar passeios que agradem a toda a família: parques de diversão, cinema, finais de semana na praia ou no campo ajudam a construir uma família unida e equilibrada.


    * Suzanna Amarante Levy é psicóloga clínica e terapeuta individual, de casal e de família. Supervisora em terapia familiar do CEAF (Centro de Atendimento à Família). Membro da Diretoria da APTF - Associação Paulista de Terapia Familiar.


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