Sábado, 16 de dezembro de 2017
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Aprendendo a lidar com a morte

Por Julienne Gananian *


Muitas pessoas evitam falar sobre a morte para não sofrerem ainda mais. Veja o que se pode aprender para impedir que a família se desestruture totalmente.

"Uma coisa da qual temos certeza é que um dia morreremos; basta nascermos para começarmos a morrer" afirma a psicóloga Suzanna Amarante Levy, especialista em casais e famílias.


E falar sobre morte e dor é sempre difícil. As pessoas estão acostumadas a pensar somente no prazer, evitando ao máximo encarar os sentimentos dolorosos. Muitos acreditam que o melhor é não tocar em assuntos tristes, para não sofrer ainda mais. A psicóloga afirma que "falar de dor não é nada fácil e que, de fato, causa sofrimento. Mas as pessoas se esquecem de que esse sofrimento, na verdade, já existe".


Suzanna garante que o melhor seria falar sobre o que machuca, conversar com os amigos e parentes para que a dor pudesse ser elaborada e curada, impedindo a estagnação do processo evolutivo individual e familiar. "O silêncio é paralisador", ela ressalta. Bons amigos e a presença da família são muito importantes no processo de restruturação da família depois da morte de uma pessoa querida.

Desequilíbrio e perda na família

Todos sabemos que a morte de qualquer parente pode ser muito estressante, a ponto de romper o equilíbrio familiar. "A morte envolve sentimentos profundos e emoções intensas, que são vividos por um longo tempo" diz ela. Sentimentos de entorpecimento (parece que não é verdade que aquilo aconteceu!), irritabilidade, medo, tristeza, raiva e desesperança são comuns e normais em determinados momentos da vida das pessoas.


A intensidade do impacto de uma perda na família pode ser influenciada por diversos fatores, entre eles:


- A função e posição da pessoa na família. Quem morreu?

- Como foi a morte?

- Em que momento do desenvolvimento da família ocorreu essa morte?

- Como foram as histórias de perdas anteriores vividas por este núcleo de pessoas?

- Que crenças cercam a morte para esta família?

Morte de pais, filhos e avós. Como superar?

A morte é vista de diferentes formas por cada pessoa, dependendo também da faixa etária. "As reações de uma criança diante da morte dos pais são variadas e estão influenciadas pela sua idade e pelo seu nível de desenvolvimento emocional e cognitivo (incluindo aspectos físicos e psicológicos). Outro fator determinante na superação do trauma é a proximidade emocional em relação ao progenitor falecido (pai ou mãe) e ao que sobreviveu" afirma Suzanna. Se o pai - ou a mãe - for capaz de minimizar a expressão de sua dor e conseguir compartilhar a tristeza da criança ou do adolescente, a ajudará a avançar no processo de elaboração do luto.


A perda da mãe, por exemplo, é sentida como o "fim do mundo" para um bebê. A psicóloga explica que, neste caso, a presença de uma outra pessoa que cuide dele é fundamental, mas a dor e desamparo decorrentes dessa falta são sempre muito intensos. O bebê não compreende, luta para "chamar" sua mãe e sente-se fracassado nesta ação. A depressão é evidente e deve ser considerada pois, ao contrário do que se imagina, os bebês sentem a morte.


O marido (ou a mulher) vivencia a morte de sua companheira(o) com um alto fator de estresse, o que desequilibra a estrutura familiar. "As possibilidades da família em lidar com o luto estão muito associadas às suas possibilidades de restruturação", explica a psicóloga e, dessa forma, todos devem se ajudar para suportar a dor, a perda e a saudade.


Considera-se a morte de um filho como a maior tragédia da vida. Essa visão vem do fato de que a morte de uma criança ou adolescente parece completamente fora de lugar no ciclo da vida. Apesar disso, em termos do funcionamento da família, o filho pequeno tem poucas obrigações e sua ausência não compromete as responsabilidades globais. Ele não sustenta ninguém, pelo contrário, depende totalmente do pai ou da mãe. Por esse aspecto, a família em geral não se desestrutura enquanto núcleo.


Mas perder um filho geralmente é um episódio dramático, pois a família projeta nos mais jovens toda a sua esperança. "A morte, portanto, carrega os sonhos, a continuidade, os desejos, trazendo sentimentos de extrema dor, descrença e culpa nos pais. Muitas vezes eles ficam tão abalados que chegam ao ponto de se divorciar" ressalta Suzanna.


Existem situações específicas de morte de filhos que podem gerar emoções diferentes. Confira:


morte de um filho deficiente: a criança causou dificuldades e sentimentos ambivalentes durante seu crescimento. Dependendo do grau de dependência entre os pais e o filho, maior será o enlutamento. Os pais não acreditam que o filho vivo poderia estar sofrendo muito mais, pois geralmente carregam sentimentos de fracasso e incapacidade.



abortos naturais ou provocados:
causam profundos sentimentos de perda, principalmente na mãe. Muitas vezes ela pode fantasiar que gerou um "bebê com defeito", precisando superar a insegurança e o medo para tentar uma próxima gravidez. Não adianta fingir que nada aconteceu: a mãe tem que passar pelo processo de despedida e aprender a lidar com a falta do bebê.



filho natimorto:
muitas vezes o bebê que nasce morto é retirado rápido demais do contato com a mãe. O melhor seria que ela ficasse por perto, por mais dolorido que fosse, para entender o porquê da ausência do bebê e facilitar a elaboração do luto. O natimorto deve ser percebido como um evento real para toda a família; ignorar essa morte pode transformá-la numa memória fantasmagórica.


Um acontecimento comum - e até natural pela lei da evolução - é a perda dos avós. "Quanto mais central a posição da pessoa que morreu, maior será a reação emocional da família" afirma Suzanna Levy. A morte de um avô - chefe do clã - implica numa perda grande para a família, pois ele detém o poder, sendo muitas vezes responsável pelo sustento financeiro de seus descendentes. Se a dependência em relação a quem morre não for tão grande, entende-se a perda mais facilmente, considerando-a como um processo evolutivo normal e de certa forma "esperado".


A morte inesperada, como conseqüência de um acidente, por exemplo, causa choque na família, pois limita o tempo para despedidas e para a resolução de questões de relacionamento. "Geralmente inicia-se um longo curso de dificuldades familiares, normalmente vistas como não relacionadas à morte", explica a psicóloga, lembrando que este assunto deve ser tratado para que não tome proporções ainda maiores. O suicídio é tido como a perda mais difícil, pois possui uma conotação de ataque, em que a família sente-se agredida, com muita raiva e impotente por não ter conseguido impedir que acontecesse.

Transformando perdas em ganhos

Os seres humanos freqüentemente conseguem transformar desvantagens em vantagens. Dessa forma, a elaboração de luto pode acabar sendo uma oportunidade de crescimento e de descoberta dos recursos de cada indivíduo da família. Portanto quem conseguir melhorar a sensação de sofrimento tende a ter um ganho emocional importante.


A família pode tentar facilitar essa vivência para os seus membros. Como conseguir isso? "Contando sempre a verdade para crianças, adolescentes e adultos. Falando sobre o motivo da morte, como foi, o que aconteceu," ensina Suzanna. Ela diz que as crianças entendem a morte com mais facilidade do que os adultos imaginam. Se ela desejar, pode participar do processo de despedida, indo ao velório, ao enterro ou à missa. "Deve-se respeitar o desejo dos pequenos e até encorajá-los a se despedir, mas sem forçar" conclui.


Comentário:    
       
gih 11 de November de 2011 | 07h 10

Esse é um pensamento racional, eu penso todo este descrito acima,porém penso também que nem uma psicóloga me faria conformar-me com a morte de qualquer pessoa principalmente dos próximos a mim.Sou espírita e penso que a morte é boa,pois o espírito se livra das dores e sentimentos humanos quando consegue se conformar. Então nem os mortos se conformam em deixar as pessoas queridas aqui.

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