Quinta-feira, 22 de junho de 2017
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Soltando as amarras

Por Norma Leite Brandão *


Luzes artificiais dos shoppings, vida em condomínios fechados, pais que se transformaram em eternos motoristas: qual é a hora de cair na real?

O mundo de hoje, com suas transformações, busca trazer mais conforto, menos desperdício de tempo, maior praticidade. Hum... alguma coisa está errada, algo não caminha como o desejado! Porque essa história não parece estar acontecendo de forma tão prática, nem tão suave assim para as famílias.


Responda rapidamente a algumas perguntas: você anda louco, pelo trânsito, levando e buscando as crianças na escola e nos cursos extras? Vive preocupado quando seu filho lhe pede para ir a pé a algum lugar? Ele conhece menos a luz do sol do que as luzes artificiais dos shoppings?


Como falar dos benefícios da modernidade se como pais, estamos todos, a cada dia, mais dependentes dos filhos e vice-versa? Esse é assunto longo, pois remete a uma série de questões, tais como segurança, desejo de proporcionar o melhor, a vida acelerada da família, enfim, coisas do mundo atual.


Jamais as crianças e jovens tiveram suas agendas tão lotadas e nunca pai e mãe precisaram correr tanto para dar conta de tudo!

Refletindo um pouco sobre o passado

É necessário que nos lembremos um pouco de alguns hábitos que faziam parte, no passado, da vida de crianças e adolescentes. Pense bem: poucos pais tinham automóveis disponíveis para levar filhos à escola e mesmo a cursos extras, quando existiam. Era um outro perfil de classe média. Naquela época, desde muito cedo, as crianças e jovens adolescentes, eram impelidos a caminhar com suas próprias pernas.


Conheciam melhor as ruas próximas às suas casas e as de bairros vizinhos. Viviam experiências, em seu cotidiano, que lhes proporcionavam situações da realidade: a vida da rua. Esse fato lhes permitia lidar mais seguramente e mais cedo com inúmeros episódios que propiciavam a necessidade de tomada de decisões, experiência fundamental para o crescimento.



Sim, os nossos medos... Ao relembrar esse passado, inúmeros pais refletem e pensam: "mas o mundo mudou. Como deixar que meu filho faça as mesmas coisas tão cedo? A violência está na rua, em nossa esquina!" É fato. Estão cobertos de razão ao falar da alteração visível nas duas últimas décadas.


Há cuidados que não podem ser desprezados no mundo em que os filhos estão inseridos. Mas aqui cabe uma pergunta: será que as famílias, imbuídas de seus medos e ansiedades, não vivem o extremo oposto? Não haverá, atualmente, uma proteção exacerbada quando se procura cercar os jovens, transformando seu universo em algo artificial e distante do mundo cotidiano? Não estaremos prolongando esse período de adolescência além da conta? Sim, todos sabem que sim. Nunca estiveram tão dependentes para as coisas básicas e, curiosamente, tão soltos para os prazeres da vida moderna: festas, bebidas, cigarros, cinema, sexo...

Direitos e deveres

É importante que, desde cedo, as crianças percebam que a cada direito corresponde um dever. E para que haja realmente entendimento dessa máxima, nada como delegar tarefas pequenas e simples tarefas, distribuídas em doses homeopáticas, mas que lhes mostrem que nada nos é dado fácil.


Há algumas, iniciadas aos 7, 8 anos, que podem parecer banais, mas seu alcance é poderoso: comprar pães na padaria, levar o cachorro para passear, buscar jornais ou mesmo providenciar algo que esteja faltando na mercearia ou supermercado mais próximo. Causa aflição? Preocupa os pais?


Sim, sem dúvida alguma. Precisarão dar conselhos sobre os cuidados a serem tomados: ser vigilantes em relação ao que acontece a seu redor, andar com pertences que não sejam de valor, cuidar do troco com atenção, enfim... uma série de atitudes que presumem cautela e responsabilidade. Mas representam os primeiros passos de uma independência que precisa ser desenvolvida ao longo dos anos. É o início para que, mais tarde, comecem a realizar percursos mais longos, aprendam a pegar um ônibus, a caminhar por ruas mais movimentadas do bairro, entre outras tantas iniciativas que denotam autonomia.

Aliviar a agenda dos pais

Isso mesmo. Se você se dispuser a semear, gradativamente, um pouco desse espírito autônomo nas crianças, sem dúvida alguma isso reverterá em benefícios também para você, quando elas entrarem na adolescência: evitará ou minimizará a loucura de, constantemente, estar correndo de um lado para o outro em função dos inúmeros e, muitas vezes, insanos compromissos que assumem.



Adolescentes que caminham com as próprias pernas repensam uma série de atividades e horários ao perceberem que são responsáveis por si mesmos. Sabem de seus limites e dos limites da família, o que faz toda a diferença ao planejar suas ações. Mais do que isso: ao sentir, na pele, o custo de seus anseios e decisões, passam a viver com os pés no chão e a valorizar e respeitar o tempo dos pais.
A idade correta para esses pequenos atos de liberdade vigiada dependerá muito do perfil da criança ou jovem e da sua sensibilidade para perceber a hora certa para cada coisa. Cada filho tem suas peculiaridades e esse fato é fundamental na decisão.

A coragem para ousar

Só é possível confiarmos na capacidade dos filhos se nos propusermos a soltá-los em doses homeopáticas e, com isso, ensiná-los a agir com discernimento. Imprevistos ocorrerão? Sim, não duvide. Perderão dinheiro, gastarão em bobagens, inicialmente, mas se aprende a fazer fazendo.


Sustos também fazem parte? Fazem. Correm riscos? Correm. Mas pense um pouquinho: os riscos hoje estão em toda a parte. No pátio da escola, na porta da sua casa, na saída do cinema do shopping... e você não estará lá para cuidar de tudo. Ilusão achar que os filhos crescem em segurança simplesmente porque são monitorados pelos pais o tempo todo. Reflita, também, sobre o sentimento de satisfação que se proporciona aos pequenos quando se deixa que percebam que são capazes, que podem dividir pequenas tarefas, que a família neles confia.


Se ainda isso não bastar, lembre-se de que o mundo de hoje pede aos jovens, cada vez mais cedo, espírito crítico, independência e sabedoria para lidar com os imprevistos. Exige que saibam ler a realidade que os cerca e que sejam responsáveis por suas ações. Isso não se alcança de uma hora para outra, muito menos numa redoma, distante do mundo real.


Conquista-se em contato permanente com o sol, vento no rosto, garoa fina e pessoas que transitam pelas ruas. Nesse novo ano que começa, retire um pouco suas protetoras asas e dê-lhes a oportunidade de ousar e experimentar a vida que corre lá fora! Esses pequenos vôos representarão o início de jornadas mais reais, verdadeiras e, principalmente, mais carregadas de significado para todos.


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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