Sábado, 24 de junho de 2017
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A família do terceiro milênio

Por Norma Leite Brandão *


Não tenha medo: uma estrutura familiar saudável para criar e educar os filhos não requer, necessariamente, mamãe e papai morando sob o mesmo teto.

Durante muito tempo a estrutura da família tradicional, composta de pai e mãe, foi uma realidade que, de certa forma, norteou os rumos de crianças e jovens.
Era um modelo definido, com homens e mulheres desempenhando papéis específicos e pré-determinados.


Ao homem cabia a função de provedor. À mulher, os deveres da casa e a educação dos filhos. Essa era uma estrutura que servia aos padrões de uma determinada sociedade, numa determinada época. Era rígida, inflexível, sob alguns ângulos. Por outro lado, propiciava alguns eixos, algumas diretrizes aos pequenos e jovens.


Não, não se assuste. Não quer dizer que aquele era um modelo ideal. Absolutamente. Mas, no momento em que esse padrão foi substituído por tantos outros, é importante que se deixe claro o que de positivo existia e que permitia que os filhos crescessem com mais autonomia. Talvez, refletir sobre alguns aspectos sirva de auxílio a tantos pais e mães que buscam, nesse instante tão conturbado, alguns caminhos.


Hoje há famílias compostas de pais e mães, somente de mães ou de pais e de casais do mesmo sexo. Enfim, o mundo mudou mesmo, não é verdade? Independentemente da composição ou ainda que o modelo seja o tradicional, vemos que esse casal já não mais desempenha as funções rigidamente estabelecidas como antigamente. Justamente porque tudo está tão alterado, os papéis exercidos estão indefinidos.


A quem cabe o quê? Esse pai e essa mãe são ambos provedores, trocam fraldas, preparam mamadeiras. Saem de casa cedo, voltam tarde... O tempo é curto diante de tudo o que se tem para fazer. Como ficam as crianças diante desse novo cenário? O que privilegiar para que a família, de qualquer natureza, seja bem estruturada e possa oferecer os eixos básicos à formação das crianças? Sim, porque a boa estrutura não engloba necessariamente pai e mãe, mas requer, de alguma forma, a manutenção de alguns papéis definidos assim como valores fundamentais ao crescimento.

A importância do acolher

Parece básico e elementar afirmar que uma das funções essenciais da família seja acolher os filhos. Mas é necessário que essa função seja revista, na medida em que a mulher, outrora tão dedicada ao lar e à observação do cotidiano, está imersa num ambiente de trabalho, por vezes extenuante e implacável.


Acolher significa, entre tantas coisas, ouvir as crianças e jovens, observar seu dia-a-dia, intervir nas ações rotineiras. Acolher quer dizer estar presente. Fisicamente? Controlando seus passos? Não, tal realidade, além de não ser benéfica, não atende aos novos tempos.


A função materna precisa ser revista com o olhar de um novo momento. Mas é fundamental para dar eixo e parâmetros aos filhos. Se o tempo é tão curto, é necessário que seja usado com sabedoria. Nesse sentido, privilegiar qualidade e não quantidade parece ser uma saída. Desempenhar essa tarefa não significa ser supermãe ou superpai.


Inúmeras vezes justificamos nossa ausência com nosso trabalho, mas nos esquecemos ou não valorizamos pequenos instantes que poderiam fortalecer elos: o jantar, um programa de televisão, um jogo, uma conversa descontraída no caminho para a escola, na hora de dormir... Momentos informais, mas que dêem subsídios para ouvir o que nossos filhos pensam. Esses são instantes, também, em que você poderá, claramente, lhes falar não somente de suas certezas, mas de suas aflições e ansiedades.


Esse hábito, cultivado desde cedo, dá segurança. Mostra que, se você não tem respostas para tudo, tem, ao menos, o desejo de acertar. E que conta com eles. Isso faz toda a diferença do mundo porque a relação se torna mais verdadeira, construída conjuntamente.

O corte do cordão umbilical

Bem, mas se acolher é importante, há a necessidade, também, de que haja, por parte de quem educa, o movimento de mostrar aos filhos que podem caminhar sozinhos. É um caminho longo, com etapas. Mas essencial ao desenvolvimento infantil. Essa função, no passado, restrita ao homem, proporcionava independência, autonomia a crianças e jovens. Àquele pai cabia "cortar", diante dos olhares aflitos da mãe, as amarras. Era dele a palavra firme, "dura". Muitas vezes, um simples olhar dizia tudo.


Importante que se reitere que nunca os jovens tiveram seu período de adolescência tão prolongado como hoje. Jamais demoraram tanto a assumir suas obrigações. Essa é uma geração com muitos direitos e poucos deveres. Curiosamente tal fato ocorre num momento histórico em que sabemos que o mundo profissional exige, cada vez mais cedo, responsabilidades dos jovens.


Pois bem. O processo gradativo que proporciona uma liberdade responsável começa nos pequenos, com ações concretas no dia-a-dia: na organização do próprio quarto, nas tarefas gerais da casa. Faz parte, também, fazê-los assumir, aos poucos, responsabilidade por si próprios delegando tarefas que os tirem do âmbito familiar: a ida, a pé, à escola de inglês, os pequenos trajetos de ônibus, a compra de pães na padaria...


Para isso, estabelecer poucas, mas boas regras de convivência e de atuação no mundo externo é essencial. Estabelecer e fazer cumprir.

Quando se é pai e mãe ao mesmo tempo

Às vezes é necessário que somente uma pessoa exerça as duas funções. Quando isso ocorre, pode surgir um sentimento de sobrecarga e frustração. Mas não se assuste! O mais importante não é acertar sempre. A máxima deve ser: fazer o melhor que se pode sob determinadas circunstâncias. Baixe suas expectativas.O melhor está distante do ideal? Sem dúvida. Mas se você desempenha sozinho o papel de criar seus filhos, saiba que, muitas vezes, sob um teto aparentemente estável, com casais estruturados de forma tradicional, tudo pode estar completamente fora dos eixos.


Saiba, também, que pais que lutam sozinhos contam com um olhar diferenciado por parte dos filhos. Crianças são seres sensíveis, percebem sua correria, suas angústias diante das limitações. Aprendem muito com isso. Normalmente tornam-se mais autônomos porque vêem, na prática, a sua impossibilidade para assumir certas tarefas práticas. Resumindo: buscam saídas. E isso pode ser muito bom se você souber delegar, incentivar, não se sentir culpado e preso à idéia de que dar conta de tudo é sua função.

Família perfeita?

Essas duas grandes diretrizes - o acolher e o corte do cordão umbilical - estão centradas na figura do pai e da mãe e são pilares da estrutura familiar. No caso da presença de ambos, a troca permanente entre o casal para a discussão dessas funções é primordial. É comum que, imbuídos do desejo de acertar, um dos dois eixos fique descoberto. Pode haver um excesso de proteção ou uma ausência de parâmetros. O segredo está no equilíbrio das funções. E essa medida só pode ser encontrada, entre o casal, se houver diálogo.


As duas linhas mestras podem existir em outros modelos familiares. O fundamental é que os papéis existam. Na figura da mãe, de uma amiga, do pai, de um padrinho, de uma tia ou mesmo de um avô. Quando os dois pilares estão definidos como prioritários, a questão parece se resumir a quem assume o quê.


Lembre-se: mais importante do que as coisas funcionarem de forma perfeita é saber lidar com os conflitos e necessidades diárias. Nada mais enganoso do que a idéia de que família perfeita é família sem discussões ou divergências. Se há uma lição a ser ensinada aos filhos é a de que viver com o outro é aprender a gerenciar conflitos. É com eles que se cresce. É somente por meio deles que se enxergam saídas. Por isso mesmo, tenha em mente: família bem estruturada é aquela que busca, entre erros e acertos, o rumo certo. O importante é buscar. Sem a idéia pré-concebida de que se deva acertar sempre.



* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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