Quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
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Filhos e profissão

Por Lucila Camargo *


Um recado para os pais: nesse momento crítico da vida dos jovens, a hora não é de escolher e sim de acolher.

Desde o nascimento de nossos filhos é natural que sonhemos, para eles, o que há de melhor na vida. Queremos que sejam felizes. Que cresçam fortes e saudáveis. Que tenham uma excelente educação, uma boa formação escolar. E que reúnam, ao longo da infância e da adolescência, condições e ferramentas para enfrentar esse mundo tão competitivo, tornando-se adultos competentes e felizes, obtendo sucesso tanto pessoal e afetivo quanto financeiro. Claro!


Queremos filhos que sejam reconhecidos, admirados e bem sucedidos. Mais que isso: que não passem por dificuldades, por necessidades, por crises. Enfim... que não sofram. Para tanto, não medimos esforços. E decidimos tudo o que nós, pais, achamos que é o melhor. Escolhemos a escola, o clube, as aulas de música, de artes marciais, o curso de inglês, o de computação, e por aí vai...


Isso significa que criamos nossos filhos fazendo escolhas por eles de acordo com o nosso modo de enxergar o mundo. E a cada decisão que tomamos, estamos lá: atrás, financiando e colaborando para seu crescimento; à frente: incentivando o seu desenvolvimento, dando as broncas necessárias e enchendo de aplausos a cada nova vitória. Mas quando chega a hora da escolha da profissão, a coisa muda de figura.

Será que ele vai saber escolher?

Sim, a coisa muda de figura. Eles não são mais crianças e são eles que terão que arcar com a responsabilidade do exercício da profissão. Então somos simplesmente obrigados a "engolir" que chegou a hora de fazerem sozinhos a primeira grande escolha. E por mais que confiemos nesse ser que criamos, nada será suficientemente bom se a escolha dele não coincidir com o nosso sonho de felicidade.


Como um pai dentista vai entender que o filho prefira ser professor de Educação Física numa escola pública numa cidade do interior a herdar sua clínica dentária já com clientela formada? Ou, como pais empresários de grande sucesso podem acreditar que a filha será feliz e bem sucedida ao definir-se pelo curso de formação de oficial da Polícia Militar oferecido pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco, junto a USP, em São Paulo?


Um terceiro exemplo - esse bem mais comum: o que um jovem deve dizer para os pais que se arrepiam só de imaginar que seu filho deseja ser músico? Muitos deles são bastante talentosos e viveriam felizes dando aulas de seu instrumento predileto, integrando uma orquestra, gravando com bandas famosas ou não, trabalhando em estúdios de som, compondo sons incidentais ou gingles de rádio e televisão.


Essas escolhas podem parecer, aos pais, tão insensatas quanto assustadoras. Mas quando se sente a confiança de ter criado os filhos para enfrentarem o mundo como cidadãos inteiros e independentes, com certeza, passado o primeiro momento de espanto virá o da aceitação. E do acolhimento.

Como ajudar seu filho

Esta é, sem dúvida, a hora de cruzar os braços e não escolher pelos filhos. E abrir os braços para acolher a escolha que fizerem! E acolhê-los nos tropeços ou percalços do novo caminho.


A primeira coisa que devemos ter em mente é que escolha profissional é só um dos muitos fatores que fazem parte da vida do adolescente na passagem para a sua vida adulta. Se esse fosse todo o problema, tudo bem, dava-se um jeito. Mas, ao mesmo tempo, ele está vivendo seu contínuo processo desenvolvimento.



É preciso considerar que, do ponto de vista físico, ele está crescendo demais ou de menos, a voz não pára de mudar, há o despertar da sexualidade. Psiquicamente, há novos processos mentais que agilizam ou não o seu raciocínio. Emocionalmente, acontecem as primeiras paixões, a necessidade de aceitação na turma, os medos e as fantasias.


Do ponto de vista de comportamento, os pais, sem se dar conta, mudam o jeito de agir e cobram do filho adequação a novas regras familiares, muitas vezes sem abrir mão das mais antigas e só necessárias durante a infância. Aquela coisa de dizer: você não tem mais idade para ficar provocando e brigando com seus irmãos menores?, ao mesmo tempo em que diz "você ainda não tem idade para acampar sozinho com um bando de amigos". Contradições absolutamente normais, mas que confundem a cabeça do jovem e podem causar distanciamento e conflitos entre pais e filhos.


O diálogo é sempre a melhor forma de enfrentar a situação. E aqui está minha sugestão para que esse diálogo realmente aconteça:


  • Comece por perceber que ninguém explica - nem para os pais nem para os filhos - que a mudança de comportamento se dá nos dois lados dessa relação. Aceite que esse momento é mesmo contraditório e que é preciso aprender a lidar com sentimentos e situações conflitantes.


  • Se o jovem está sendo treinado para virar adulto, os pais precisam treinar-se para realmente afastar-se da individualidade do filho e renunciar a considerá-lo criança. É preciso permitir que ele ande com os próprios pés, dê os próprios passos. E é necessário garantir que, mesmo que ele faça uma escolha diferente daquela tantas vezes sonhada, ou não passe no vestibular, isso não vai mudar em nada o amor que vocês sentem por ele.


  • A recíproca também é verdadeira. Quero dizer: como pais, devemos saber que o fato de incentivar nossos filhos a fazerem suas próprias escolhas - o que, muitas vezes, significa contrariar nossos desejos, estudar em outra cidade e, eventualmente, buscar uma carreira que signifique mudar para longe de nós - não vai diminuir o afeto que a nós dedicam.


    * Lucila Camargo é jornalista, psicodramatista e orientadora educacional.


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