Segunda-feira, 29 de maio de 2017
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Os primeiros anos duram para sempre

Por Carla Oliveira *


A fase pré-escolar não é apenas uma etapa de recreação e de preparação para o aprendizado. Ela representa a parte mais decisiva do próprio aprendizado - e influencia muito o futuro da criança.

Uma criança, quando nasce, pode ser vista como uma semente que vai crescer, desenvolver-se e gerar frutos. Que são esses frutos? São sentimentos, atitudes e valores que ela vai assumir perante a vida, como solidariedade, amor, iniciativa, esperança. Ou então egoísmo, ódio, desânimo, conformismo. Depende dos pais, educadores e da sociedade em geral determinar que tipo de frutos serão desenvolvidos pelas crianças, pois eles são os "jardineiros" que irão alimentar e orientar essas sementes em seu processo de crescimento.


Os seis primeiros anos de vida das crianças, denominados a "primeira infância", são muito importantes nessa jornada. É nessa etapa que ocorrem os aprendizados fundamentais da criança, pois seu cérebro está assimilando todas as informações que recebe e formatando sua visão do mundo. A partir desses conceitos iniciais é que serão construídos todos os outros, como se eles fossem os pilares de sustentação de um prédio que será erguido ao longo da vida.


Além disso, inúmeras pesquisas já comprovaram que os estímulos emocionais e cognitivos recebidos nesse período são fundamentais para desenvolver plenamente as funções cerebrais, abrindo portas para o conhecimento. Se os estímulos são inadequados ou insuficientes, essas portas não são ativadas e a criança perde inúmeras possibilidades. Em outras palavras, é a estimulação que permite o desenvolvimento dos vários tipos de inteligência e de outros mecanismos como a memória e a corporeidade - capacidade de utilizar o corpo para interagir com o mundo externo.

Cérebro: uma máquina poderosa!

No sexto mês de vida intra-uterina, o bebê já possui todos os neurônios. A partir desse momento até os seis primeiros anos de vida, ocorrerá um processo chamado organização celular cerebral, em que os neurônios se agrupam de acordo com suas diferentes funções e estabelecem contatos sinápticos, possibilitando a passagem dos impulsos nervosos entre si.


Esse processo depende estritamente da interação com o meio ambiente. Os estímulos recebidos pela criança são processados pelo sistema nervoso central e ajudam no estabelecimento de sinapses e na organização dos neurônios. A capacidade de reformulação desta estrutura cerebral é chamada de "plasticidade". A plasticidade cerebral é máxima até os sete anos e, após essa idade, começa a declinar lentamente, mas persiste até a fase adulta.


O papel dos pais é aproveitar ao máximo todo esse potencial do sistema nervoso, para que as crianças possam se desenvolver intelectualmente de maneira integral.

Se não conhecerem os princípios do desenvolvimento infantil, os pais deixarão de proporcionar experiências fundamentais ao seu filho, comprometendo assim a utilização plena dos recursos de funcionamento do cérebro. Isso pode levar, no futuro, ao fracasso na escola, na vida social e profissional.


Não se pode esquecer também que os pais têm um papel fundamental na formação da personalidade de seu filho, tanto pela herança genética como pelo ambiente que propiciam a ele. Suas atitudes, seus gestos, seu modo de falar, de reagir às situações, de se relacionar com os outros, de lidar com as emoções, tudo isso é extremamente relevante para a percepção da realidade para a criança. É um modelo que ela irá seguir. Com se vê, a participação dos pais na vida dos filhos é muito mais importante e decisiva do que se pode imaginar.

O que fazer, afinal?

No livro Puericultura: preparando o futuro para seu filho, o pediatra Celso Eduardo Olivier* dá dicas muito importantes sobre o desenvolvimento das crianças. Seu enfoque principal são crianças até dois anos de idade. Essa é a fase mais intensa do desenvolvimento cerebral. Para se ter uma idéia, a superfície cerebral de um recém-nascido é de 680 centímetros quadrados. Ao final do segundo ano de vida, essa extensão já equivale a de um cérebro adulto, que é de 1.600 centímetros quadrados. Leia, a seguir, um pequeno resumo das principais recomendações contidas no livro:



  • Ao realizar alguma atividade com a criança, como dar banho, descreva o que está fazendo. Fale também sobre o que irá fazer a seguir ("Mamãe vai colocar sua roupa depois"), para que ela aprenda a noção de tempo - passado, presente e futuro.


  • Repita diversas vezes o nome dos objetos nos quais seu bebê está prestando atenção, para que ele associe as duas informações (nome/objeto).


  • Explique para que serve cada objeto na rotina do bebê: a colher é para comer, roupa é para vestir, rádio é para ouvir, etc.


  • Compare os objetos, ressaltando a diferença entre eles. Mostre que uma bola é grande e a outra é pequena, por exemplo.


  • Classifique os objetos, dando-lhes adjetivos: bonito, azul pequeno, redondo, frio, e assim por diante.


  • Escute seu filho, mesmo que ele ainda não domine totalmente as estruturas verbais. Preste atenção, seja paciente, pergunte, demonstre entusiasmo pelo que ele diz, ainda que seja difícil entender!


  • Na hora de dormir, conte uma história sobre os acontecimentos do dia, para trabalhar a memória da criança.


  • Segure seu bebê de costas para você, para que ele possa observar e tocar os objetos. Ofereça a ele objetos de diferentes cores, formas, tamanhos e texturas.


  • Toque bastante em seu filho, faça carinho massagem, beije, abrace, faça cócegas. O contato físico é muito importante.


  • A experimentação é uma das formas mais eficientes para estimular o raciocínio e o aprendizado. Por isso, nada de apressar seu filho ou terminar as tarefas por ele. Deixe que ele faça as coisas sozinho.


  • Olhe nos olhos do seu filho e demonstre seus sentimentos por meio de expressões e gestos. Assim, ele irá se acostumar com mensagens não-verbais e melhorar seu poder de comunicação.


  • Use bonecos e bichos de pelúcia para brincar com seu filho e atribua aos brinquedos sentimentos humanos, como raiva, felicidade ou tristeza. Isso ajuda a criança a reconhecer e entender seus próprios sentimentos.


  • Não ceda à birra. Espere que a criança se acalme e converse sobre os motivos que estão causando essa frustração nela. Entender as razões do que acontece é essencial para o desenvolvimento emocional.


  • Não adote os termos usados pelas crianças - como "cacholo" em vez de cachorro - para não reforçar os erros.


  • Assim que a criança tiver idade suficiente, deve começar a freqüentar a escolinha, para que possa conviver com outras pessoas e ampliar suas experiências.


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