Sexta-feira, 24 de novembro de 2017
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Relato de uma mãe com deficiência visual


Eliana tem 40 anos. Ela e seu marido João, de 43 anos, são cegos. O filho do casal, Glauber, tem dez anos e não tem deficiência visual. Quer conhecer a história deles?

Quando fiquei grávida, eu já dizia para o Glauber: "Mamãe não enxerga, papai também não. Mas seremos tão bons pra você quanto os outros pais". Não dizem que os bebês já sentem as coisas dentro da barriga? Então, eu acho que desde esse momento meu filho compreendeu que éramos diferentes.


Minha deficiência é congênita. Sofri uma lesão no nervo ótico antes de nascer e, por isso, nunca enxerguei. Já o meu marido, sofreu um descolamento de retina aos nove anos de idade. A probabilidade de que o Glauber tivesse deficiência visual era muito pequena, portanto. Quando ele nasceu, o pediatra foi frio e disse que achava que meu filho também não enxergava. Mas, fizemos o teste e constamos que não havia problema algum.


Depois do parto, quando as pessoas vinham me visitar, muitas falavam para a minha mãe, que mora comigo: "Nossa, você vai ter um trabalhão agora!". Achavam que ia sobrar tudo para ela. O primeiro banho foi ela quem deu, mas eu conseguia me virar muito bem sozinha, pois já tinha ajudado a cuidar dos meus sobrinhos.


Tive algumas dificuldades, mas nada que não pudesse dar um jeito. Na hora de dar remédios ou vitaminas de gotinhas, era um pouco complicado, então eu pedia ajuda. Mas trocava fralda, fazia mamadeira e dava banho sem problemas. Para tirar a temperatura dele, eu usava - e ainda uso - um termômetro importado que fala o grau que está medindo.


O Glauber demorou um pouquinho mais para tirar a fralda, pois eu não conseguia identificar bem quando ele estava com vontade de ir ao banheiro, e ele acabava fazendo xixi na roupa. Eu também tinha muito medo de que ele caísse e se machucasse, por isso eu acho que o protegia demais, mas depois me acostumei. Fora isso, foi tudo normal.


Quando ele era pequeno e saíamos de casa, ele ficava amuado, quietinho, porque via que os pais dele não se movimentavam com desenvoltura em lugares estranhos. Quando ele começou a freqüentar a escola, aos quatro anos, ele achou que a professora não gostava dele porque não costumava tocar muito nele. Aí, eu expliquei que ela não o tocava tanto porque conseguia enxergá-lo, ao contrário do papai e da mamãe.


Meu marido sempre jogou futebol com o Glauber, com uma bola que tem um sininho dentro. Ele adora futebol. Costumo ir aos jogos dele e fico torcendo. Algumas pessoas até me falam que às vezes esquecem que eu não enxergo, porque faço tudo o que as outras mães fazem. As mães dos amigos do Glauber confiam totalmente em deixar os filhos delas na minha casa, pois sabem que sou muito atenciosa.


Nós também jogamos dama, baralho, forca. Claro que muitas coisas são adaptadas. O baralho é em braile e o tabuleiro de damas tem linhas em relevo e as pedras são encaixadas em pinos. Forca nós jogamos no computador, que tem sintetizador de voz. Outro dia eu até joguei boliche com ele, em uma festinha de um colega. Foi muito divertido!


O Glauber é muito amigo e companheiro. Ele preenche os cheques para mim e vai comigo ao banco quando preciso, para digitar os números no caixa eletrônico. E isso é espontâneo, o que me deixa muito feliz, porque eu sei que meu filho não é meu ponto de apoio, que ele tem a vida dele, os amigos dele.


Meu filho também é um menino muito inteligente. Ele aprendeu a ler aos quatro anos. Eu ouvia ele falar "ga-to", "bo-la" e perguntei pra minha mãe se ele estava vendo as figuras em algum livro. Ela respondeu: "Não, ele está lendo!". Fui até a escola e contei para a professora, ela ficou espantada e deu um papel com algumas palavras para ele ler. E ele leu.


Nossa deficiência nunca impediu que o Glauber fizesse qualquer coisa que as outras crianças fazem. Tudo é uma questão de adaptação, de superar os obstáculos. Apenas não temos tanta desenvoltura e rapidez como os outros, mas temos muito amor e dedicação.



Depoimento de Eliana Nice Coelho Anadão.


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