Sábado, 24 de junho de 2017
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Avó aos 40 anos

Por Carla Oliveira *


Os índices de gravidez precoce no Brasil são alarmantes. Você já pensou na possibilidade de ser avó antes do esperado?

Você está preparada para ser vovó? "Mas minha filha tem apenas 17 anos!", você diria. Pois saiba que muitas mulheres com filhos adolescentes já são avós! Um em cada quatro partos atendidos pela Rede Hospitalar do SUS é de mulheres abaixo de 19 anos. E não são somente essas garotas que precisam de atenção. Os futuros avós também precisam aprender a lidar com a situação.


Quando recebem a notícia de que sua filha adolescente está grávida, os pais reagem com surpresa na maioria das vezes. "Alguns reagem com indignação e mostram-se totalmente descontentes com o acontecimento. Outros, apesar do inesperado, dão apoio à filha, prontamente, e alegram-se com a notícia. Mas, de uma forma ou de outra, podemos dizer que, após um tempo, a maioria acaba se acostumando com a situação, a partir da qual podem manifestar-se reconstruções afetivas e novos sentidos às inter-relações familiares", explica a psicóloga Regina Sarmento, do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), da Unicamp.


"A experiência fica mais complicada se a gravidez for de um parceiro eventual. Se for do namorado e a família já conhece o garoto e gosta dele, fica mais fácil aceitar", revela Regina. "Em geral, a mãe aceita primeiro, ela se identifica com a filha, pois ambas são mulheres. Já o pai fica mais bravo, mas também acaba aceitando e até curtindo a gravidez depois. Muitas das garotas que atendemos no CAISM nos contam orgulhosas que o pai comprou o bercinho do nenê ou uma roupinha para ele".


"Deve-se destacar, ainda, que existem outros contextos em que adolescentes desejam e planejam a gravidez com seu namorado ou marido e, conseqüentemente, as reações serão bem mais favoráveis" assinala a psicóloga.

Surpresas no caminho

Patrícia*, 20, engravidou às vésperas de completar 18 anos. Na época, estava namorando Diogo* há apenas quatro meses. Ela conta que sua família ficou um pouco apavorada no começo. "Foi um choque. Mas eles foram compreensivos. Ao contrário de muitos pais, eles não queriam que eu fizesse aborto de jeito nenhum", relata.


"É claro que ficamos preocupados, pois ela era muito nova, imatura e não tinha terminado os estudos. Não imaginei que isso fosse acontecer. Mas tivemos que nos adaptar à situação e fazer o possível para ajudá-la, pois sabíamos que não estava sendo fácil para ela também", afirma Solange*, mãe de Patrícia, que tem 45 anos.


Na hora em que a família fica sabendo, é um momento crítico, pode haver discussões, mas depois a harmonia geralmente volta. Esse caos é administrado aos poucos. "O apoio da família é imprescindível e insubstituível", ressalta Regina. "A adolescente espera a compreensão e o amparo dos pais, o que lhe ajudará a criar vínculos afetivos com o bebê, e este aspecto é muito importante para o desenvolvimento da gestação e da função materna", completa a psicóloga.

Assumir o papel de mãe é difícil

Patrícia deu à luz Nathália* quando estava terminando o terceiro colegial. No ano seguinte, não conseguiu dedicar-se ao curso pré-vestibular, que acabou abandonando na metade, para poder cuidar melhor da menina. Só este ano ela pôde começar a faculdade de relações públicas, que cursa à noite, para poder trabalhar durante o dia.

Os hábitos e a rotina da adolescente que engravida certamente mudam muito. Ela não poderá ir a bares e danceterias como antes. Na escola, muitas vezes será vitima de crítica de professores e colegas e também diminuirá seu ritmo nos estudos. "As mudanças físicas desencadeadas pela gestação podem causar certos desconfortos. Se a gravidez já é um momento de transição e grandes mudanças emocionais para qualquer mulher, na adolescência isso pode ser mais intenso", revela Regina.

Uma das maiores dificuldades que a adolescente irá enfrentar é, sem dúvida, a reação de seu parceiro. Os garotos geralmente ficam distantes, e muitos não querem assumir a paternidade. Felizmente, Patrícia não passou por isso. "O Diogo sempre deu o maior suporte para mim e para a nossa filha". A garota continuou morando na casa dos pais, mas o namorado vai vê-la quase todos os dias. "Um dia pretendemos nos casar, ter outros filhos, mas agora não é o momento", conta.

O apoio dos pais e do namorado foi essencial para Patrícia. "Sei que engravidei num momento que não era adequado. Se não tivesse a compreensão e a ajuda minha família e do Diogo, não teria conseguido. Hoje todos ficam babando pela Nathália, é uma briga para ver quem a pega no colo". A estudante resume toda a sua experiência em uma frase: "Ser mãe é muito bom, mas dá trabalho".

Conselhos para os futuros avós...

Na classe média, as adolescentes priorizam os estudos, por isso a gravidez é, em geral, acidental. "Em classes menos favorecidas economicamente, muitas meninas, por não ter oportunidade de estudar, idealizam a gravidez como um projeto de vida. Mesmo inconscientemente, muitas querem engravidar, seja para estabelecer compromisso com o namorado, para adquirir status de adulta ou para receber mais atenção", conta Regina.

"Eu aconselharia os pais a dar muita atenção à sua filha, conversar bastante, ouvir o que ela tem a dizer e tentar identificar o que ela está sentindo. Ela pode estar assustada, rejeitando a criança, sentindo-se culpada ou, por outro lado, a gravidez pode significar a realização de um desejo, de um sonho, e ela só precisa da aprovação dos pais para dar vazão aos seus mais profundos sentimentos de felicidade frente à possibilidade de se tornar mãe", afirma a psicóloga. E não se esqueçam de que os garotos também precisam de acolhimento. Em geral, eles são mais fechados e não expressam seus sentimentos em relação à gravidez e ao exercício da paternidade.

No entanto, eles também podem estar sentindo muito medo e angústia e precisam de apoio. "Fizemos uma pesquisa aqui no CAISM e verificamos que os garotos também sentem as mesmas aflições que as garotas, como ansiedades frente às mudanças e responsabilidades que estão por vir, o medo de o bebê ter alguma doença ou morrer durante a gravidez", revela Regina.

Um último conselho importante para os futuros avós é o de não assumir a responsabilidade pela criança. Mesmo que eles achem seu filho ou filha imaturos para cuidar de um bebê, é importante que os adolescentes aprendam a se virar. Afinal, eles é que são os pais. Muitos avós ficam com a criança o tempo todo, e ela acaba até confundindo o papel dos pais e dos avós. "Se tiverem disponibilidade, os avós podem e devem ajudar com os cuidados rotineiros, mas os pais da criança é que deverão assumir a maior parte desses cuidados e tomar as decisões importantes em relação ao seu desenvolvimento e processo educacional", finaliza Regina.

* Os nomes foram trocados a pedido da entrevistada.


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