Sábado, 27 de maio de 2017
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A influência das companhias

Por Lucy Casolari *


"Diga-me com quem andas e te direi quem és". Esse dito popular ronda as preocupações dos pais assim que as crianças começam a voar. Afinal, como lidar com as amizades... "boas" ou "más"?

Quando ainda são pequenos brincam - na escola, no condomínio ou clube - uns ao lado dos outros, sem efetivamente interagir entre si. Mas começam, à medida que crescem, a buscar seus pares, escolhendo os próprios amigos, o que demonstra maturidade e autonomia. A partir dos quatro anos passam a demonstrar suas preferências e elegem o companheiro especial para compartilhar as brincadeiras. A presença desse primeiro amigo é muito importante para o desenvolvimento infantil.


A criança tem necessidade de se sentir especial, primeiro para os pais e, depois, quando o círculo de convivência se amplia, isso se estende aos amigos. Até aqui tudo bem, não é? Mas, e... se esse amigo não corresponde às suas expectativas? Os pais, de uma forma geral, gostariam que os filhos fizessem escolhas mais próximas o possível das que eles próprios fariam. Entretanto, é preciso entender que a criança seleciona aquele que tem a ver com ela, mas também, alguém que tenha alguma característica que ela admira ou gostaria de ter. E aí tudo pode se complicar.

O que são más companhias?

Na escola de educação infantil, ou nas primeiras séries do ensino fundamental, são freqüentes os pedidos, vindos das famílias, para separar seu filho de outra criança, por ser considerada "má influência". Quando a escola atende à solicitação, ficam ambas infelizes, sem conseguir entender a razão da mudança. Antes de qualquer outra orientação é preciso buscar as causas dessa interferência, para avaliar se as justificativas são realmente consistentes.


Lembre-se de que, em primeiro lugar, se seu filho está crescendo, é esperado que vá aos poucos se descobrindo, entrando em contato com outras crianças e suas famílias, selecionando seus amigos. Talvez você esteja pensando: "Hum... ele é tão pequeno ainda, não sabe nada, eu é que sei o que é melhor para ele!" Claro, ele não tem a sua vivência, mas precisa começar a fazer suas escolhas e, principalmente, a sentir que os pais confiam nele, pois é isso que fortalece a sua auto-estima e garante o bom desenvolvimento. Em alguns casos, as razões dos pais, para a separação de duas crianças, estão baseadas em impressões equivocadas ou superficiais, portanto, cabe sempre refletir melhor sobre o assunto.

Cuidados especiais

Algumas situações, entretanto, merecem uma observação cuidadosa e até, dependendo do caso, justificam, posteriormente, a intervenção mais contundente dos pais. Tenha calma e procure perceber as reações de seu filho, escute seus comentários e analise todo o contexto antes de tomar qualquer atitude precipitada.


Se seu filho demonstra fixação exagerada num único companheiro a ponto de se isolar do convívio com os demais, pode ser motivo de preocupação. Especialmente numa fase em que a abertura para as amizades é fundamental, a criança que se fecha num relacionamento deixa de se desenvolver socialmente. Procure conversar com seu filho para tentar desvendar o que tanto o fascina nesse amigo a ponto de desconsiderar todos os outros. As respostas poderão trazer surpresas, mas, certamente, darão pistas sobre como agir.


Merece atenção especial, também, a dependência de uma criança em relação à outra, o que pode comprometer a amizade, tornando-a um peso excessivo para aquela que serve de apoio emocional para a outra. Afinal, a amizade é uma relação que envolve trocas, se a balança pender muito para um dos lados, não será saudável para nenhum deles. Há necessidade de um trabalho especial com cada um. É necessário fortalecer e aumentar a autoconfiança daquele que é dependente e o outro precisa aprender a colocar seus próprios limites, sem receio de perder o amigo.

A arte de conviver com as diferenças

Na fase de fazer amigos o desafio é conviver com as diferenças. Isso vale para as crianças que aprendem a lidar com os colegas, a ceder, a se impor, a negociar, a perdoar. É quando as amizades são intensas, mas têm, ao mesmo tempo, tremendos altos e baixos. É assim mesmo, o amigão de ontem torna-se o "maior inimigo", antes que fiquem novamente "de bem". Não se assuste, tudo isso faz parte da socialização, crianças não têm meio termo, pois falta-lhes, ainda, amadurecimento para discordar sem brigar feio ou ficar "de mal para sempre".


Os pais, por sua vez, acabam entrando em contato com a diversidade de outras crianças e famílias. Na prática isso significa que serão questionados sobre seus hábitos e valores. Não tenha dúvida, seu filho registra tudo e poderá confrontar o que observou fora de casa com o conhecido universo familiar.

Se o amigo tem hábitos muito discrepantes em relação a sua família, isso pode, certamente, provocar sucessivas discussões.


Sua atitude vai depender da sua flexibilidade, capacidade de administrar conflitos e, claro, do nível de diferenças entre as regras familiares. Se você estiver tranqüilo e seguro de seus princípios, fica mais fácil lidar com os questionamentos de seu filho. Coloque a sua posição deixando claro que as famílias são diferentes entre si, mas nem por isso umas melhores que as outras.


Entretanto, se for realmente inviável a convivência, procure incentivar outros relacionamentos e evite as idas à casa dessa criança e as visitas dela à sua. Procure, inclusive, deixar de manifestar seu desagrado com essa amizade, pois às vezes essa insistência acaba reforçando o que se pretende neutralizar.

Exercício de tolerância

O dia-a-dia nos surpreende com situações em que temos que administrar conflitos. Lidar com as intransigências das crianças exige jogo de cintura, paciência e equilíbrio . Além disso, é comum nos depararmos com nossas próprias contradições, implicâncias, idiossincrasias. Em alguns momentos, somos capazes de perceber as inseguranças e medos, em outros, o equilíbrio se vai e os preconceitos - e quem não os têm? - tomam conta e são responsáveis por nossas reações e atitudes. Se tudo isso parece verdade em várias situações, no caso das chamadas "más companhias", confirma-se mais uma vez.


Quando confrontados pelo próprio filho com outros hábitos e pontos de vista diferentes, o primeiro impulso de defesa é rechaçar o outro para se afirmar como dono da verdade. Convém refletir sobre o que está por trás disso, pois essa postura, além de tirar a nossa própria serenidade, estará desenvolvendo nas crianças uma forma de intolerância. Não se trata, apenas, de seguir o figurino politicamente correto, mas, sobretudo de educar seu filho para ser flexível em suas posições. Desse modo, ele será o maior beneficiário pois será capaz de ampliar seu convívio social e visão de mundo, sem dúvida, um bom começo para ser feliz.


* Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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