Quarta-feira, 18 de outubro de 2017
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Choradeira para ir à escola? Aí tem...

Por Lucy Casolari *


Tudo começa quando o despertador toca, ou na hora do almoço. Continua durante o trajeto, e culmina numa sessão constrangedora à porta da escola, com direito a gritaria e queixas de dor. Essa é uma das cenas domésticas que mais desestrutura mães e pais.

As dúvidas sobre como agir em circunstâncias tão delicadas nos levam a procurar por aquilo que está motivando essa resistência. Essas situações, mais comuns no início do ano, tendem a desaparecer à medida que a criança se adapta à nova realidade. Se persistirem é preciso investigar as causas. Observando o seu comportamento é possível levantar as hipóteses e, então, buscar as soluções.


Se houve mudança de escola, principalmente de uma pequena para uma maior, a insegurança é quase certa, pois o ambiente é desconhecido e esse medo, natural. Rituais de acolhimento para amenizar esse impacto, em especial para os alunos da 1ª série, fazem parte da rotina de algumas escolas. De qualquer maneira, é importante que seu filho se familiarize com os novos espaços, conheça as pessoas que trabalham lá e saiba a quem recorrer em caso de necessidade.


A situação exige paciência, mas também calma e firmeza. Em caso de queixas físicas como dores de barriga ou cabeça, antes de qualquer outra atitude recorra à "água mágica" - água com açúcar, mel, chá de erva cidreira. É uma forma de cuidar de seu filho e, ao mesmo tempo, ganhar um tempo maior para observá-lo.


Essa estratégia é usada nas escolas com bons resultados! Experimente e, se não fizer efeito, considere a reclamação... Entenda que quando uma criança somatiza está realmente sentindo a dor ou a indisposição relatada e precisa de ajuda. Portanto, não tente convencê-la de que não é nada ou dizer que é invenção, pois assim ela se sentirá ainda mais desamparada.

Pesquisando as causas

Quando as crianças estão nas primeiras séries do ensino fundamental, portanto no início da escolarização formal, é esperado que estejam entusiasmadas com a aprendizagem e à vontade no ambiente. Essa rejeição à escola pode estar sinalizando alguma dificuldade no relacionamento com a professora ou colegas. Existe, também, a possibilidade de haver algum tipo de problema de aprendizagem ou com a metodologia.


A resistência pode ser originada por questões que não tenham nada a ver especificamente com a classe ou professores. Fatos como o nascimento de um irmão, separação dos pais, morte de alguém próximo podem ser situações estressantes e detonarem a fobia escolar. O sofrimento da criança é grande e é exteriorizado no momento de pegar a mochila ou atravessar o portão do colégio. Se os pais, com a ajuda da escola, não conseguirem resolver a situação, é conveniente buscar a orientação de um psicólogo.

Integração com o grupo, com a professora

O relacionamento com os outros alunos é muito importante. Se seu filho não se sentir aceito, é provável que reaja com choros e birras antes de ir à escola. Crianças costumam ser cruéis quando descobrem o ponto fraco de alguém. Gozações dirigidas ao que foge dos padrões - gordinho, magro demais, óculos, postura física - às vezes se transformam em apelidos pejorativos como baleia, palito, quatro-olhos, etc.


Essas "brincadeiras" podem tornar a escola um ambiente ameaçador. A melhor maneira de ajudar seu filho é conversar com a professora ou orientadora, que terão mais possibilidade de lidar com essas questões. Evite reclamar diretamente com os colegas ou com seus pais, para que a situação não se agrave. Essa sua interferência expõe o lado frágil da criança que precisa da "ajuda da mamãe" para resolver seus problemas.


Se havia um vínculo muito forte com a professora do ano anterior, é esperado que leve um certo tempo até se estabelecer uma relação mais próxima com a nova. Chorar de saudades é coisa de início de ano e, aos poucos, tende a desaparecer. Uma visitinha à "querida ex" pode ajudar seu filho a compreender que não perdeu o seu afeto, mas que agora deve se relacionar com a nova mestra.


Se está difícil a relação com a atual professora, convém investigar as razões. A resistência que persiste após o período de adaptação está pedindo a intermediação da escola. Às vezes uma palavra da professora, fora do tom ou mal interpretada pela criança, pode travar o relacionamento e, aí, tudo fica mais difícil. A orientadora terá condições de avaliar o quadro, trabalhar para a formação desse novo vínculo e até mudar seu filho de classe, se for o caso.

Como está a aprendizagem?

A criança que não consegue acompanhar as atividades de classe por imaturidade, falta de domínio da leitura ou da escrita sente muita ansiedade e insegurança, podendo se recusar a ir à aula. Essas dificuldades precisam ser identificadas, pois tendem a aumentar no decorrer do ano, à medida que os conteúdos se tornam mais complexos. É uma verdadeira bola de neve!


Às vezes uma atenção especial em classe é suficiente, em outros casos é necessária a intervenção de um especialista: psicólogo, psicopedagogo ou fonoaudiólogo. O encaminhamento depende do caso, e só pode ser feito a partir do diagnóstico da escola. Os pais precisam estar convencidos da necessidade do atendimento, caso contrário não será eficiente e só provocará desgastes, principalmente na família.

Atitudes práticas do dia-a-dia

  • Mostre-se firme e não negocie nem barganhe com recompensas ou presentes. Seu filho precisa perceber que irá para a aula de todo jeito.

  • Se a choradeira for muito grande, arme-se de muita paciência e espere passar, mas depois, leve-o para a escola, ainda que se atrase.

  • Um bom momento para conversar é o final do dia. Retome as atividades, o que aprendeu de novo, como foram as brincadeiras no recreio e as queixas da criança. Esse papo, mais descontraído e num momento mais tranqüilo, pode levar a pistas que esclareçam toda essa resistência.

  • Se a situação perdurar, não se resolvendo após contatos e tentativas de solução, é possível que haja falta de sintonia entre o seu filho e a proposta ou perfil da escola. Pensar na mudança e refletir bastante antes de tomar qualquer atitude, afinal é uma decisão séria.

  • Cuidado para não passar a seu filho a idéia de que tudo e todos têm que se adaptar a ele. Se partir dessa percepção não estará aprendendo a superar obstáculos, o que pode comprometer a vida escolar e até seu futuro profissional. Além disso tudo, uma eventual mudança de escola vai acarretar uma nova adaptação, o que pode ser bem sofrido. Portanto reflita bem, pese prós e contras e só fale com ele depois de ter, realmente, tomado uma decisão.


    * Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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