Segunda-feira, 29 de maio de 2017
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A importância dos avós na educação

Por Lucy Casolari *


Avós costumam oferecer afeto incondicional e desmedido, sem poupar esforços para satisfação de todos os desejos dos netos. Será que esse modo de agir atrapalha a educação dos pequenos?

Costuma-se ouvir, com certa freqüência, a conhecida frase: "Os avós estragam meu filho!" Ao dizer isso os pais estão se referindo aos infindáveis exemplos de permissões para: comer um doce antes do almoço, tomar refrigerante a qualquer hora, ver TV até mais tarde, deixar brinquedos espalhados...


As interferências dos avós em defesa dos netos podem criar situações de conflito. Há perplexidade com a passada de mão na cabeça da criança que - sem querer - riscou a parede, quebrou o vaso de estimação da vovó com a bola ou, ainda, sentou-se descuidadamente em cima dos óculos do vovô. Os pais, lembrando-se de passagens de sua infância, espantam-se com a excessiva tolerância e complacência desses avós, que foram tão enérgicos e exigentes com seus próprios filhos.


O ponto é realmente esse: aos pais cabe a dura tarefa de educar, dar limites, ensinar o que pode e não pode, cobrar os deveres de casa e da escola... As crianças, espertinhas que são, percebem rapidinho que podem fazer todo charme com os avós e, melhor ainda, conseguir sucesso. Os pais devem preparar os filhos para a vida e ensinar-lhes a responsabilidade, da mesma forma que seus pais fizeram com eles ao educá-los.

Segurança, essencial para os pais

A cumplicidade que se forma entre avós e netos pode, em certos momentos, até incomodar, mas é preciso ressaltar que os mimos dos avós, permitindo coisas que os pais negariam e satisfazendo as vontades dos netos, não criam conflitos para as crianças se os pais estiverem seguros de sua autoridade e função.


Entretanto, no caso de excessos, evite chamar a atenção dos avós na frente das crianças. Uma boa conversa pode ajudá-los a colaborar reduzindo, por exemplo, a quantidade de presentes fora de época ou o exagero de doces durante a semana. Se houver insistência quanto a dar dinheiro sempre que a criança pede, sugira que seja estipulada "a mesada do vovô" ou, então, a abertura de uma caderneta de poupança. Assim, ficam garantidos os mimos e, ao mesmo tempo, evitam-se os estragos...


Relembrando as sábias e intrigantes palavras de Rachel de Queiroz em seu texto "A arte de ser avó:"

Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

O baú de lembranças

Se educar é a tarefa fundamental dos pais e aos avós tudo é permitido, afinal, qual será a contribuição deles para a educação das crianças?


Não tenha dúvidas, além de serem o suporte afetivo, os avós são depositários da história da família. Essa é uma importante função das pessoas mais idosas! Partilhar suas memórias e lembranças faz muito bem aos avós, que se sentem valorizados por esse conhecimento, que os orientais, em sua sabedoria, denominam ancestralidade.


Ao abrir seu baú de lembranças diante de filhos e netos e ir retirando, aos poucos, álbuns de fotografias, mechinhas de cabelo, receitas de biscoitos, tudo acompanhado de muitas e muitas histórias, os avós estão trazendo à luz as imagens das raízes da família. Conhecer essas histórias é importante para que as crianças cresçam saudáveis do ponto de vista emocional, pois visitar o passado é alimentar o presente e preparar o futuro.


Os avós gostam de contar as histórias do tempo em que os pais eram pequenos, como eram seus brinquedos, os alimentos prediletos e os detestados, o tipo de roupas usadas para ir à escola ou à praia. Esses podem ser "ganchos" perfeitos para puxar relatos sobre as cidades e países de onde vieram seus pais, os pais de seus pais, os bisavós, as profissões dos antepassados e a sua luta pela sobrevivência.


Saber como foi a vida dos seus ancestrais mostra aos pequenos que eles fazem parte de um todo maior e que estão no mundo pela determinação de toda essa gente que veio antes deles. As crianças adoram ouvir histórias e, também, a sua repetição. Desse modo vão construindo o sentimento de pertença, fundamental para dar sentido à própria existência.

Os espinhos nessa delicada relação

Entretanto, outra situação também pode acontecer: muitos avós têm dificuldades no relacionamento com seus filhos e aproveitam a oportunidade para dar-lhes umas alfinetadas, desautorizando-os na frente dos netos. Surgem comentários do seguinte tipo "Seu pai, quando era pequeno, tinha medo de água e agora exige que você participe das competições de natação, que absurdo!" ou "A sua mãe detestava a professora de Inglês, mas não admite que a minha netinha tenha problemas com qualquer professor"...


São situações delicadas, que podem reavivar mágoas antigas, ou serem resultado de conflitos mal resolvidos, pois toda família tem os seus, não é verdade? Talvez por isso, há quem tenha verdadeira aversão por essas histórias dos avós, usadas indevidamente para acerto de contas, o que acaba provocando desentendimentos e até brigas.


Contornar esses episódios é uma arte. Muitas vezes é preciso mudar o rumo da prosa. Experimente direcionar as conversas a partir do uso de objetos intermediários; o álbum de fotos pode puxar as histórias de outros familiares ou, quem sabe, o livro de receitas ajuda a promover uma incursão à cozinha, para preparar juntos aquela especialidade da bisavó...


As memórias da família ficam preservadas e, ao mesmo tempo, aparadas as arestas. Acima de tudo, são proporcionados às crianças momentos preciosos, que também entrarão para a história. No futuro, esses momentos farão parte das histórias que os netos, já adultos, contarão a seus filhos, netos, e, quem sabe, bisnetos!


* Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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