Quinta-feira, 19 de outubro de 2017
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Quando o professor faz a diferença

Por Norma Leite Brandão *


Inclinações por determinadas áreas, todos têm. Mas qual é a força de um professor para que os alunos descubram a beleza de certas disciplinas?

Não é novidade nenhuma a história daquele aluno que sempre teve horror à matemática ou à escrita e, quando adulto, lembra, com verdadeira angústia, suas dificuldades. A rejeição à área, na grande maioria dos casos, aponta para a figura do professor. O adulto, ao explicar seus "tropeços", começa por descrever aspectos da matéria, mas, invariavelmente, toca em outros: nas aulas meramente expositivas, nos exercícios sem significado, enfim, em estratégias utilizadas que não conseguiram, de alguma forma, mobilizar o estudante.


Falar somente das estratégias seria minimizar o assunto. Na realidade, a didática utilizada pelos professores tem origem na sua concepção do que seja aprendizagem. E isso faz toda a diferença na sua postura em relação ao aluno, ao planejar aulas, propor um trabalho ou mesmo ao realizar uma avaliação. Essa forma de ação acaba por promover maior ou menor aceitação de alguns assuntos. Em certos casos, há verdadeira aversão, o que pode comprometer profundamente seu aprendizado e deixar lacunas sérias.

Ensinamentos de grandes mestres

Quando nos recordamos daqueles professores que marcaram nossa vida escolar, freqüentemente nos deparamos com figuras que não se detinham somente em sua disciplina. Seu pensamento era abrangente. Alunos respeitam professores que tenham o domínio da matéria, mas esse é somente um dos itens a serem considerados. Os grandes mestres sempre souberam que a especificidade só tem sentido quando o educador carrega uma visão mais ampla do mundo e faz com que seus alunos percebam o maior.


Quando isso ocorre, aqueles aspectos técnicos são, muitas vezes, minimizados para que se consiga chegar à criança ou adolescente. Porque esse é o nó a ser desatado. Lidar com alunos que gostem do conteúdo, que tenham facilidades é simples. O grande desafio está em fazer com que os demais percebam caminhos e se descubram na área, procurando dar o melhor de si. Isso não se faz com exercícios enfadonhos, desprovidos de significado. Há que se ter paixão, gosto pelo ofício. Há que se ter paciência com os que ainda não enxergaram a beleza da disciplina. Mas, mais do que tudo, há que se ter a humildade de não usar o conhecimento e o poder da avaliação para destruir a auto-estima dos alunos.

Professor perfeito não existe

O educador que faz a diferença é um eterno pesquisador de conteúdos, de formas e de estratégias. É ousado, não tem medo do erro, tenta diferentes saídas para os problemas do cotidiano. Olha seus alunos nos olhos e conhece cada um para melhor poder atuar. Nesse olhar questiona sua dinâmica de trabalho, refaz o percurso, corrige as rotas.


Sabe que é falível e que não escolheu uma profissão fácil. Por isso mesmo, não se escuda em eternas desculpas para alguns fracassos que possam acontecer. Ser educador, num país com tantas distorções e lacunas, é contar com problemas. Mas também é acreditar que existam saídas e que sua atuação acontece a longo prazo. Significa perceber que deixa marcas e que estas podem alterar o rumo das coisas para melhor ou para pior.


Bem, mas algo merece uma atenção especial quando pensamos no professor que atua de forma diferenciada: a sensibilidade para perceber que, se possui um conteúdo a cumprir, tem também, diante de si, uma classe heterogênea que, necessariamente, pode não atender a algo previamente estabelecido.


A percepção, o jogo de cintura para lidar com o que a moçada traz altera rumos e tem o poder de transformar a aula em algo mais verdadeiro, dinâmico. E, convenhamos, esses jovens nunca estiveram tão repletos de informações! Jamais precisaram tanto de educadores que soubessem ouvi-los, a fim de canalizar esse conhecimento bombardeado, veiculado de maneira fugaz, mas intensa.


Equilibrar a programação acadêmica com o currículo oculto e, muitas vezes, utilizar esse currículo a favor da disciplina dá sentido à aprendizagem. E os alunos parecem pedir isso. Querem saber por que estudam determinados conceitos, qual sua aplicação, enfim, o que farão na vida prática com alguns conteúdos. Nesse sentido, é fundamental que teoria e prática caminhem de mãos dadas.

O prazer, o bom humor e a energia

Cada professor tem características diferenciadas no exercício de seu ofício. Mas se há algo que contamina os alunos é ver na figura do mestre o prazer e o gosto pelo que faz - ainda que o percurso seja árduo, duro, permeado por dificuldades. Quando o prazer deixa de existir, a batalha está perdida. Não há teoria ou técnica que dê conta. E para que o gosto seja maior do que o desgaste do cotidiano, nada como o humor, a leveza para lidar com alguns assuntos pesados e os momentos que propiciam o "recarregar das baterias".


Sim, professor precisa de energia e essa não vem só da sala de aula. Vem do alimento com seus colegas de trabalho, das leituras e cursos de aprimoramento realizados, das atividades culturais a que tem acesso. Esses são elementos que dão ao profissional a visão mais abrangente e a flexibilidade tão necessária para a batalha diária! Professor sozinho e isolado realiza sua tarefa de forma incompleta e, mais cedo ou mais tarde, os reflexos se fazem sentir em si próprio e na turma.

Feitiço necessário

Finalmente é preciso ressaltar que, por mais que crianças e adolescentes tenham tendências por alguma área acadêmica, o bom professor faz milagres quando se dispõe, de coração aberto, a encontrar um caminho para os mais resistentes. Na realidade, eles têm a necessidade de se sentir capazes, de acreditar em seu potencial. O educador precisa saber mostrar-lhes, primeiramente, não "o quanto falta", mas aquilo que já conseguiram.


Ainda que sejam poucos, os pequenos progressos precisam ser valorizados. Alguns conteúdos precisarão ser cortados. Algumas técnicas e procedimentos, alterados. Não importa. Vale tudo quando se quer "enfeitiçar" alunos... Enfeitiçá-los pelo conhecimento não é tarefa para iluminados. É para quem tem a humildade de reconhecer que há algo maior do que o programa, do que as notas do boletim, do que aquilo que os livros didáticos trazem: o gosto, o prazer pelo que estão aprendendo, ainda que aquela não seja sua área de maior facilidade.


Há receitas? Não, não há receitas prontas e acabadas, mesmo porque cada aluno é um e cada classe tem uma dinâmica. Mas se não há receitas, precisa haver, no mínimo, algumas diretrizes e um bom cozinheiro - que saiba selecionar e misturar ingredientes, que experimente os temperos, que pesquise o tempo certo do forno... Mais do que isso: um cozinheiro que ouse e não tenha receios - que se permita errar e, com o erro, busque a dose mais adequada do sal, da pimenta, da água e do azeite. Que suje suas mãos na farinha e nos ovos...


O conhecimento pode ser um banquete com direito a muitos aromas, sabores, entradas, aperitivos e pratos principais. Com a diferença de que, para prepará-lo, não basta o profissional especialista, mas os aprendizes, com suas colheres que acrescentam, seus garfos que espetam, suas facas afiadas a cortar, mas sempre com suas terrinas prontas a serem preenchidas. Desde que se saiba abrir o apetite, é claro!


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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