Sexta-feira, 17 de novembro de 2017
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Seu pequeno pesquisador

Por Norma Leite Brandão *


Você, como pai ou mãe, deve se lembrar dos bancos escolares quando a professora lhe pedia uma pesquisa. Agora, volta a se lembrar dela, quando seu filho chega em casa, com um assunto, uma proposta de trabalho semelhante.

Você corre muito, seu tempo é curto. Há muitas questões que envolvem a atividade da pesquisa: seleção de material, entendimento do conteúdo, registro por parte da criança... Que mãe já não viveu a situação aflitiva ao perceber que o material encontrado está além ou aquém do que foi pedido? Quem nunca passou pelo sentimento de inquietação, procurando novas palavras para explicar um texto cuja linguagem ainda parece inacessível aos filhos?


Quantos pais já não fizeram com que copiassem páginas inteiras de um conteúdo, muitas vezes, sem significado para eles? A família fica irritada com a escola, o tempo dado para tal tarefa foi pequeno, ou aquele assunto é amplo, complexo demais. A criança é pequena, talvez a escola não a tenha preparado para esse tipo de registro!

Pesquisar por quê e para quê?

Tudo isso acontece, mesmo. São sentimentos reais, mas é necessário refletir sobre eles. Ocorrem porque o aprendizado, no passado, era diferente. A grande maioria dos pais têm uma visão de pesquisa nascida quando o mundo era outro, outras eram as concepções de aprendizagem.


Viveram uma realidade educativa em que aprender, muitas vezes, significava ler livros em busca de informação para, posteriormente, registrá-la no caderno ou folha em branco. Valia a cópia, a transcrição de trechos já produzidos por diferentes autores. É necessário que se compreenda, hoje, à luz das recentes descobertas sobre a aprendizagem, o que realmente está implícito no exercício da pesquisa. Só assim os filhos podem ser realmente ajudados.


Que instrumentos de busca existem hoje? Como selecionar o essencial? De que forma realizar os registros? E talvez, o mais importante: como fazer com que a criança sinta prazer nessa procura de informações e em seu resultado final?


Para responder a essas perguntas talvez fosse importante buscar o significado dessa prática em nosso cotidiano. Que motivos nos levam a realizar uma pesquisa em nossa vida diária? Pesquisamos produtos quando queremos preço, qualidade, praticidade. Pesquisamos guias quando queremos saber percursos para chegar a um determinado local, listas telefônicas ao precisarmos de algum número.


Outras vezes, encantamo-nos com alguns assuntos e buscamos, por vontade intelectual, um maior aprofundamento, seja em livros, jornais, revistas ou simplesmente conversando com pessoas. Isso tudo quer dizer uma coisa: pesquisa está ligada à necessidade, prática ou intelectual. Ela deve ser inerente ao ato de busca.


No caso de crianças em fase escolar, essa necessidade não deveria estar ligada simplesmente a um pedido da professora. A curiosidade infantil é inesgotável! Sabemos que, quanto menos idade tem uma criança, mais curiosa ela se mostra, mais se expõe. Faz parte do papel dos pais o incentivo para que esse espírito de descoberta esteja sempre presente.

A pesquisa não começa nos livros

Imagine-se agora, depois de um longo e duro dia de trabalho. Você está com seu filho de sete anos em casa e ele lhe diz com os olhos brilhantes: "Hoje tenho um trabalho! Preciso pesquisar sobre mamíferos!" Por que não substituir aquela reação inicial que carrega peso, aflição, pelo entusiasmo?


Seu discurso pode ser o seguinte: "antes de olhar qualquer outro material, que tal observar seu cachorro? Ele é um mamífero, pode dar pistas para sua pesquisa, pistas que podem ser enriquecidas depois, com outras coisas. Ah...pegue seu lápis, uma folha, escreva o que vê, desenhe o que conseguir. Depois podemos conversar um pouquinho sobre suas observações."


Mostrar às crianças que a pesquisa não começa no livro é a primeira lição. Pesquisar é, antes de mais nada, olhar o mundo. Ler o mundo vivo, que está a nosso alcance. Imagine que, ao jantar, você converse com seu filho sobre o que foi observado. Deixe que ele fale, explique o que viu, que lhe faça perguntas, tire conclusões.

Ampliando o repertório

Responda às questões que souber, diga-lhe que você também não sabe tudo e que algumas coisas podem ser completadas se ele conversar com mais alguém da casa, ou consultar outro tipo de fonte como vídeo, fotos, ilustrações.


Outro mandamento da pesquisa: mostre que os instrumentos de investigação são muitos - vão do olhar, passam pelo cheiro, pelo gosto, pelo tato. Diga à criança que nenhuma fonte oferece todas as informações e que, portanto, não é interessante que ele fique com somente uma visão, vinda de um único lugar. Diferentes pontos de vista são importantes, complementam, enriquecem seu trabalho. Peça que, durante essas pequenas buscas, faça breves anotações, com palavras, frases curtas e desenhos.

Um registro verdadeiro

Terminada essa etapa, veja o que ele conseguiu, se necessita de alguma complementação como fotos, música, algum texto ou ilustração que você tenha em casa. Peça-lhe que escreva, de maneira organizada, uma primeira versão. Esqueça sua forma escrita de anos atrás, na escola. Solte-o para que esse pesquisador encontre o seu jeito próprio.


O trabalho não precisa ter inúmeras páginas, não há necessidade de termos técnicos desconhecidos. A riqueza maior não reside no resultado final, mas no processo vivido por seu filho. Explique-lhe que registros de pesquisa, necessariamente, não se reduzem a textos escritos. Um bom desenho, um gráfico, uma simples tabela, dependendo do assunto, são dados preciosos.


Palavras-chave: confiança e incentivo. É em casa que tudo começa. Se você espera que seu filho não perca o desejo de busca pelo conhecimento, não hesite em empurrá-lo nessa direção. Muitos pais, inclusive, percebem o quanto aprendem com as crianças. Porque é dessa relação, aparentemente informal, que elas nos questionam, mostram suas ansiedades, fazem com que nos olhemos com profundidade.


Dê-lhes espaço. Dê-lhes a qualidade e não a quantidade de seu tempo. Ao final da atividade você poderá nem encontrar a perfeição mas, com certeza, enxergará a postura de um investigador e, o que é mais importante, não lhe tirará o gosto pela busca. Reforçará o vínculo afetivo que o une a você. Pois não é isso a vida?



* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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