Quarta-feira, 18 de outubro de 2017
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Da escola particular para a pública

Por Norma Leite Brandão *


O dinheiro está curto, o desemprego ronda e o padrão econômico das famílias tem sido profundamente alterado nos últimos tempos. No momento em que há cortes de despesas, os gastos com educação são seriamente avaliados.

O sonho dos pais sempre é o de proporcionar aos filhos o que há de melhor. A preocupação em oferecer ensino de qualidade é busca permanente, com constante sacrifício para manter o padrão. Porém isso nem sempre é possível, uma vez que se vive num país em que qualidade de ensino está vinculada à escola particular.


Quando os pais se vêem diante da inevitável transferência para o ensino público, medos e ansiedades afloram. Há um misto de culpa e de preocupação com a realidade lida em jornais e ouvida em noticiários: violência, drogas, greves, professores mal preparados, enfim, assuntos freqüentemente associados à escola pública.

Ensino pago não é educação garantida

A discussão sobre qualidade de ensino e preparação dos docentes não se restringe às escolas estadual ou municipal. Nem todas as instituições pagas são ilhas de excelência ou garantem que seus alunos fiquem distantes da realidade veiculada nos jornais e TV. Muitas possuem custo altíssimo por belas instalações e piscinas aquecidas. Mas deixam a desejar no que se refere à formação de alunos e professores.


Por isso, avalie racionalmente os benefícios oferecidos pela escola particular: se o método atrai o interesse da criança; se o espírito crítico é estimulado; se a escola discute as dificuldades e se acolhe a família como parceira.

Mensalidades, roupas caras e viagens

Manter seu filho numa escola particular não significa somente pagar as mensalidades; inclui dar a ele o padrão de vida dos amigos da escola: festinhas, tênis importados, roupas da moda, material escolar moderno e viagens nas férias.


Nem sempre a criança entende que a família está passando por problemas financeiros, entrando em choque com o momento vivido. Isso traz sofrimento, muitas vezes acompanhado de um sentimento de rejeição pelos colegas por não acompanhar o padrão econômico dos demais.


Esta situação traz desgaste emocional a pais e filhos. E não reflete somente no bolso. Confunde a criança que estava acostumada ao alto padrão e cria conflitos em casa.

Escola pública sim. Por que não?

Optar pela escola pública como saída para um momento difícil pode não ser tão terrível assim. Não se trata de dizer que é uma escolha fácil. Ela envolve alguns procedimentos importantes para que você esteja mais tranqüila e possa fazer essa passagem com maior segurança.


  • Converse abertamente com seu filho sobre a necessidade da mudança se essa for a saída encontrada. Não se inquiete com uma reação, a princípio, negativa. Ela pode não estar ligada necessariamente à escola pública. As crianças normalmente resistem, não desejam separar-se dos amigos, têm receio do novo.


  • Converse com pessoas de seu bairro que já tenham experiências na rede pública. Você pode ter dicas preciosas e se surpreender com algumas iniciativas.


  • Visite o maior número de escolas, estaduais e municipais, que puder. Exija o encontro com coordenadores. Peça-lhes informações sobre número de alunos por classe, reciclagem dos professores, como é feito o atendimento aos pais e aos alunos com dificuldades escolares. Não tenha receio de ser chata. Ninguém está lhe dando nada de graça. Todos pagamos pela educação; é obrigação do Estado e direito de qualquer cidadão.


  • Informe-se sobre a existência de Associação de Pais e Mestres e sua atuação - sua presença pode fazer uma enorme diferença na qualidade de ensino.


  • Procure não valorizar tanto a aparência física da escola. Lembre-se, você está numa instituição pública, carente de recursos. Isso não significa, necessariamente, que seus profissionais não sejam capacitados. O que está em jogo é a formação de seu filho. Inúmeras vezes a carência é substituída por criatividade e ousadia.

    O papel de cada um

    Para os pais, viver essa nova realidade é assumir uma nova condição - a de ser agente transformador. E sabe por quê? Porque a escola pública que aí está precisa exatamente de pessoas como vocês, que já viveram outra realidade e que sabem o que desejam para seus filhos.



    São essas as famílias que têm voz, argumentos e que podem dar uma contribuição efetiva para as mudanças. Optar por esse tipo de ensino significa mais compromisso, mais disponibilidade para acompanhar o processo e buscar caminhos em parceria.


    Para as crianças, essa experiência significa olhar a realidade mais de perto, valorizar o que se tem em casa e aprender a lidar com a adversidade e com a intolerância. Num mundo voltado à aparência e ao consumo, a tarefa não é fácil. Mas você pode retirar desse novo momento, algumas lições preciosas. Lembre-se de que o lado positivo de qualquer crise é a descoberta de caminhos e pode ser uma oportunidade de fortalecimento.



    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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