Quinta-feira, 21 de setembro de 2017
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Diários, eternos companheiros na adolescência

Por Norma Leite Brandão *


Ela chega da escola, almoça rapidamente, sobe as escadas correndo e...tranca-se no quarto! A mãe, preocupada, bate à porta. Silêncio...

Em cima da escrivaninha pode haver papéis soltos escritos - alguns amassados - ou até mesmo o tradicional caderninho de anotações pessoais: o famoso diário.
A mãe fica curiosa, mas se contém. Ah! Que vontade de saber o que acontece na vida daquela menina: seus pensamentos, suas emoções... seus doces segredos!
A garota rapidamente o esconde. Aquele é seu companheiro mais íntimo - ouvido atento às suas alegrias, dores, ansiedades e conflitos.


Quando nada mais é possível ou quando mais ninguém pode ser o depositário fiel de suas inquietações, lá está ele, com suas páginas em branco, à espera, como que a dizer: aqui você pode tudo. Venha! E ela, então, se entrega, solitariamente, a seu pequeno caderno, procurando respostas dentro de si mesma ou simplesmente registrando momentos repletos de significado em sua vida cotidiana.

A escrita que resgata a vida

Escrever é tarefa que, dizem os conhecedores do ofício, dá sentido à vida. Faz com que o mundo se reconfigure em nossa mente. A escrita traz reflexão, autoconhecimento. Mas também tem o papel de tornar nossa existência mais bela, menos dolorida. Quando jovens resolvem registrar suas experiências e expectativas numa folha de papel, por livre e espontânea vontade, exercem um ato importante nessa fase da vida, tão conturbada e de tantas e profundas transformações.


Não há período em que se isolem mais. Tornam-se arredios, avessos à aproximação e ao diálogo com os mais velhos. Nesse momento, o diário representa um instrumento eficaz, válvula de escape, cantinho privilegiado para o desaguar de anseios e paixões - espaço verdadeiro, genuíno de quem busca liberdade. Muitos nem o usam, no início, para produções próprias: copiam poemas, colam imagens, fotos, reescrevem pensamentos. Vale tudo, desde que o material seja o reflexo do momento vivido.

A descoberta da forma de cada um

Mas é, também, por meio das ilações contidas nesse tipo de registro escrito que muitas adolescentes descobrem seu talento na arte da escrita. Escrever se aprende escrevendo. A prática ensina o que a teoria simplesmente explica, justifica. Exatamente por isso, muitas vezes, é no diário que acontecem as primeiras experiências de muitas garotas que virão, posteriormente, dedicar-se aos atos de escrita com freqüência ? algumas até mesmo profissionalmente.


De qualquer maneira, com habilidades e tendências ou não, quando jovens fazem seus ensaios no papel, com freqüência e por sua própria vontade, criam vínculos diferenciados com o ato de redigir. Nesse momento, buscam formas próprias, sejam poemas, divagações ou declarações de amor. Não importa. Seu estilo começa a surgir e a ser burilado, muitas vezes inconscientemente. Ajudar a canalizar a energia dos jovens para esse tipo de atividade não significa imposição, mas respeito, valorização e incentivo por parte dos pais quando percebem a tendência.

A curiosidade dos pais

É comum que alguns pais se sintam, nesse momento, curiosos, desejosos de conhecer um pouco mais do mundo que os filhos insistem em encobrir nessa faixa etária. Há até mesmo aqueles que, sem que os adolescentes saibam, vasculham seus pertences em busca de informações. Nada tão invasivo e desrespeitoso! Difícil conter-se? Sim, sabemos que é difícil. Mas se queremos que os filhos respeitem nossa privacidade, precisamos mostrar-lhes por meio de atos concretos que também respeitamos a sua.


O papel dos pais nada mais é, nesse instante tão delicado, do que o daquele que assiste e consegue preservar esses momentos de solidão da adolescente com carinho e compreensão. Acompanhar à distância. Mais importante do que ler informações pessoais, pai e mãe colheriam dados muito mais significativos de seus filhos se observassem suas atitudes, "lessem" os sinais que emitem diariamente, em seus atos cotidianos. E, com base nessa observação, pensassem em caminhos para atuar. Quanto poderia ser evitado ou minimizado se essa fosse uma prática constante!

Um pouco de luz e cor

Mas essa riqueza toda, que pode ser desvendada por meio da escrita voluntária, também é ignorada por muitos adolescentes que nem ao menos se aventuram... Uma pena! Nesses momentos, vale sempre aquela idéia que diz que devemos propiciar os instrumentos, sem imposição...


Muitas vezes um diário vindo, despretensiosamente, em forma de lembrança, de presente, numa ocasião especial, pode acordar dentro da jovem algo totalmente adormecido, mas capaz de lhe dar enorme prazer e conforto. Mais do que isso, pode dar um pouco de luz e de cor à sua vida, uma vez que lida com a imaginação, com o sentimento e com os anseios tão naturais da idade!


Quando se fala da importância dos registros pessoais, nunca é demais lembrar as palavras da escritora e educadora Lucy McCormick Calkins: "Escrever permite que transformemos o caos em algo bonito, permite que emolduremos momentos selecionados em nossas vidas, faz com que descubramos e celebremos os padrões que organizam nossa existência."


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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