Segunda-feira, 24 de abril de 2017
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Meu filho quer ser bailarino

Por Adriana Mabilia *


O que você faria se seu filho lhe pedisse para estudar balé? Brigaria com ele? Colocaria numa escola de futebol? Consultaria uma psicóloga? Calma! Não é o fim do mundo! Saiba que muitos homens ganham a vida dançando e nem por isso deixam de ser bem machos

Marcelo Gomes tinha cinco anos quando começou a dar as primeiras piruetas. De tanto observar a irmã mais velha, que fazia dança, ele conseguia imitar toda a coreografia e aos sete anos seus pais o matricularam numa escola de balé clássico, no Rio de Janeiro.


Hoje, aos 21 anos, ele é um dos mais promissores bailarinos do mundo e integra o time de uma das principais companhias de dança clássica dos Estados Unidos, a American Ballet Theatre. O papel do príncipe Siegfried, no espetáculo "O Lago dos Cisnes", está lhe rendendo inúmeros elogios, além de uma ótimo salário: 1.300 dólares.


Diferentemente dos pais de Marcelo, nem todos aceitam a idéia do filho ser bailarino, pois acreditam que balé é coisa de homossexuais. Ceres Alves Araújo, professora e psicóloga da PUC, em São Paulo, afirma que "hoje, cada vez mais mulheres se engajam em profissões que antes eram consideradas masculinas. Da mesma forma, homens podem realizar atividades antes ditas femininas, sem que isso remeta à homossexualidade".


Mesmo assim, o preconceito ainda existe. Um exemplo disso é a diferença entre o número de meninas que estudam na Escola de Bailado do Teatro Municipal: 530 garotas contra apenas oito meninos. Esmeralda Penha Gazal, bailarina e diretora da escola, diz que, ao contrário das meninas, os garotos não são trazidos pelos pais. Geralmente são estimulados pela notícia de alguma grande companhia de balé internacional que esteja vindo ao Brasil, por um filme em que haja bailarinos ou por espetáculos de dança com artistas famosos.

A paixão pela dança

Mônica Mion, bailarina e diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo, revela que os meninos normalmente se iniciam na dança após os 15 anos, quando conquistam certa independência emocional para assumir a escolha perante a família e a sociedade. "A proximidade entre os garotos e o balé acontece de forma indireta, acompanhando a irmã ou a namorada que estudam dança, por exemplo", completa Mônica.


Foi dessa forma que Gleidson Vigne interessou-se pelo balé. Quando era pequeno foi campeão de judô e chegou a jogar futebol no Flamengo, do Rio de Janeiro, por três anos. Teve sua primeira aula de dança aos 17 anos, no curso técnico de educação física. Como namorava uma menina que fazia parte de um grupo de balé, interessou-se ainda mais pela atividade. "Quando meu pai soube que eu estava dançando ficou muito bravo. Foi ao colégio para conversar com o diretor, brigou com o professor e fez escândalo" conta Gleidson.


Porém ele não desistiu: largou o futebol, ingressou numa escola de dança em fevereiro de 94 e em junho do mesmo ano já era profissional. Seu pai cortou a mesada na esperança de que ele largasse as sapatilhas e voltasse a jogar. De nada adiantou, Gleidson começou a ganhar dinheiro suficiente para se manter. "Meu pai, meus parentes e amigos só aceitaram a minha escolha quando comecei a aparecer na mídia. Aí eles perceberam que eu tinha me tornado um bailarino, um artista, não um homossexual", lembra Gleidson.


"Já fiquei muito chateado, mas o importante é que o preconceito foi vencido. Hoje meu pai se orgulha do meu sucesso e meus amigos me admiram", confessa. Muitas vezes Gleidson se divertia com a reação dos antigos colegas da época do futebol: "quando voltava ao Rio e dizia ao pessoal do Flamengo que estava fazendo balé, eles se despediam rapidamente, receosos de serem chamados de gays por estarem conversando comigo".


Hoje, aos 24 anos, Gleidson é bailarino contemporâneo do Balé da Cidade de São Paulo, um dos grupos de dança do Teatro Municipal e é casado há três anos com Andréa Thomioka, também bailarina.

Sensibilidade não é sinal de homossexualidade

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, o cérebro masculino é diferente do feminino. Isso determina aptidões e interesses diversos entre meninos e meninas" explica a psicóloga Ceres de Araújo.


Quando um garoto se interessa por balé, isso não quer dizer que ele tenha transtornos na identificação sexual. Significa que ele tem uma sensibilidade muito desenvolvida e uma grande capacidade para apreciação estética, funções geralmente mais apuradas nas meninas. "Se um menino de fato se interessar por esse tipo de aula, deve ter o direito de experimentar para ver se gosta", sugere a psicóloga.


Robson Lourenço, 31 anos, nunca pensou que um dia seria bailarino. Fazia aulas de sapateado e percebeu que os alunos que também faziam balé giravam e sapateavam muito melhor. Assim interessou-se pela dança clássica e acabou abandonando o emprego de bancário e a faculdade de jornalismo para buscar a verdadeira realização profissional.


Depois de três anos, entrou para o Balé da Cidade de São Paulo. Nessa época, sua mãe ainda não sabia exatamente o que ele fazia. "Quase a matei do coração quando levei a primeira malha - a roupa de bailarino - para lavar em casa. Ela tomou um tremendo susto ao ver aquilo e pensou que eu tivesse virado homossexual".


Robson explica que a preocupação de mãe acabou quando ela assistiu ao seu primeiro espetáculo. Só passou a acreditar que ser bailarino é uma profissão, no momento em que ele conseguiu comprar um apartamento e um carro com o salário da dança.

A importância do apoio da família

Ceres de Araújo alerta que reprimir um garoto que deseja dançar significa privá-lo da felicidade de perseguir seu sonho, levando-o a uma profunda frustração. "Ele tem o direito de buscar a satisfação e de sentir prazer por estar fazendo o que quer". Mas avisa: os pais devem ter consciência do preconceito que o menino irá enfrentar.


Alex Soares, 19 anos, recebeu o apoio dos pais desde o início da carreira. Hoje, como Gleidson, é membro do Balé da Cidade de São Paulo. Seu contato com a dança começou desde bem cedo, pois a mãe trabalhava numa escola de dança. Aos seis anos começou a aprender sapateado e jazz e aos dez interessou-se pelo balé clássico.


No caso de Alex, a patrulha veio por parte dos amigos. "Evitava contar que era bailarino para não ser injustamente taxado de homossexual. Quando eles descobriram fizeram faixas para me gozar, mas a diretora do colégio acabou com a farra". Passada a surpresa, tudo voltou ao normal. Alex continuou a jogar futebol com os amigos e se reintegrou ao grupo. "Mas sem o apoio da família não teria suportado a pressão social", ele garante.


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