Quinta-feira, 19 de outubro de 2017
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Espírito de Natal sim, de consumismo não

Por Lucy Casolari *


A decoração, com seus enfeites tradicionais, está em todos os cantos. A TV anuncia brinquedos e novidades para enlouquecer crianças. O que fazer nessa hora?

Esse cenário se repete todos os anos. Entrar nos chamados templos de consumo significa ser atropelado por inúmeras figuras de Papai Noel, pinheiros de todos os tipos, ofuscantes decorações, muitos anjos, enfim, toda aquela parafernália da época. Detalhes cuidadosamente planejados para criar o que ficou convencionado como o "espírito de Natal", ou seja, a necessidade de comprar, comprar e comprar.


Presentes para todos - filhos, sobrinhos, pais, irmãos, primos, avós - se o círculo se fechar apenas na família. Claro, não podem ser esquecidos os amiguinhos, aquele tio do clube ou do condomínio. A lista é infindável e a expectativa das crianças não tem limites, até porque elas não têm noção do quanto isso custa, nem sobre o que representa essa somatória de presentes no final. E, além disso, os tempos estão bicudos, não é? Equilibrar o orçamento e satisfazer todos esses desejos acaba sendo um desafio e tanto!

Buscar alternativas

Conforme a idade é realmente difícil fazer com que os pequenos compreendam essas questões. Muitas vezes, até sem perceber, a atitude dos adultos estimula o consumo exacerbado. O que dizer aos filhos, por exemplo, se os próprios pais sentem-se pressionados a gastar energia preciosa em horas e horas de caminhadas na interminável procura de presentes? E aquele sentimento de culpa por não poder proporcionar às crianças a bicicleta ou o videogame recém lançado que, dizem elas, o amigo, com certeza, vai ganhar?


Assim, para os pais, o primeiro ponto parece ser: dar uma parada, analisar, delimitar o que é possível e fazer as escolhas dentro do estabelecido. Se chegar à conclusão de que nesse Natal só dá para presentear com lembrancinhas, tudo bem, é provável que você não seja o único. Combinar brincadeiras de amigo secreto em família ou em outros grupos pode ser uma estratégia divertida e menos onerosa e desgastante para todos. Lembre-se de que um mimo bem escolhido pode ter mais valor do que um presente caríssimo e sem significado.


Bem, e quanto aos pimpolhos? Será interessante demonstrar clareza em relação ao possível para não alimentar altas expectativas e, posteriormente, maiores frustrações diante de desejos e sonhos não satisfeitos. De que adianta deixar no ar a possibilidade de um presente que, de antemão, os pais já sabem que não poderão dar? Ofereça às crianças alternativas mais concretas, por exemplo, uma pequena lista de brinquedos dentro de um valor estabelecido. Dessa maneira você estará desenvolvendo o senso de realidade e de limites absolutamente necessários à vida, tanto atual quanto futura.

Virando o jogo

Marcar o Natal como uma data inesquecível é um desejo legítimo das famílias. A magia será lembrada pelas crianças quando já forem adultas. Cabe, portanto, aos pais refletir sobre qual idéia dessa festa estão passando aos seus filhos. Apenas uma corrida às compras, um exagero de comidas e bebidas?


A partir dos três anos começa a haver o entendimento sobre o que significa a data, portanto o momento ideal para apresentar o verdadeiro espírito do Natal. Ofereça-lhes a possibilidade de vivenciar, na prática, valores como solidariedade, companheirismo e doação. Aqui vão algumas sugestões de atividades a serem feitas no mês de dezembro, para ajudar as crianças a ampliarem a visão do Natal - e que, certamente, farão parte de suas lembranças.


Faça dessa fase uma atividade da família, envolvendo todos na montagem da árvore, colocação das luzes e guirlandas, empacotamento dos presentes. Aproveite as habilidades das crianças e enriqueça com um toque pessoal os cartões de Natal, com seus desenhos, pinturas, dobraduras e, claro, pequenos textos alusivos à data escritos com suas próprias letrinhas. Peça-lhes que coloquem a data, pois assim ficará tudo registrado para quando estiverem crescidas. Vale, também, enviar pelo correio às pessoas que moram mais longe essas mensagens de carinho e afeto.

Natal dos outros

No quarto de seus filhos certamente há brinquedos, roupas e livros que caíram em desuso, mas que ainda podem ser utilizados por outras crianças; faça junto com eles uma triagem desses objetos, em bom estado, e encaminhe-os para uma instituição. Aproveite para produzir as embalagens, tudo no maior capricho. É importante que a sua criança acompanhe a entrega e possa ver os olhinhos das outras brilhando de alegria. Se você conseguir envolver outras famílias nessa iniciativa, programe na instituição escolhida uma verdadeira festa de Natal, com direito a guloseimas e brincadeiras. Esse resultado coletivo será ainda mais produtivo, assim as crianças estarão sendo Papai Noel para os outros, uma boa lição de solidariedade,


Ajude seu filho a entender que o Natal não gira só em volta dele, envolva-o na elaboração da lista de presentes, peça a sua opinião sobre o que "tem a cara" de cada uma das pessoas e, se tiver pique e paciência, leve-o junto para as compras.
Incentive-o a produzir presentes para os avós e tios, pode ser a partir de algo que aprendeu na escola: cestinhas, porta-retratos, porta-lápis, pinturas e, quem sabe, um pão ou doce de Natal, feitos com a sua ajuda, é claro. Tudo com sua marca pessoal. Use e abuse de papéis coloridos, fitas e cartõezinhos.


Festas comunitárias, do condomínio, clube ou rua, são excelentes oportunidades de juntar as pessoas que convivem durante o ano todo, em torno de uma bela mesa, com música e alegria numa grande confraternização. O esquema pode ser aquele em que cada família leva um prato, mas o fundamental é envolver todos na preparação. Nessas comemorações cabe, ainda, a representação de um auto de Natal com os personagens interpretados pelas crianças, além de suas mãozinhas nos cenários e figurinos.

Resignificar a data

Essas não são apenas algumas "dicas" para festas de final de ano em tempo de crise. São sugestões que podem levar adultos, crianças e jovens a dar uma pausa na correria diária, respirar fundo e se perguntar: afinal, o que é o Natal? Para que serve ele se não for capaz de unir as pessoas em torno de algo maior e verdadeiro?


Isso não se faz necessariamente com grandes e valiosos presentes. Nasce das circunstâncias de convivência que nós, adultos, soubermos proporcionar a nossos filhos, mostrando nossos limites, necessidades e, acima de tudo, fazendo com que olhem o outro. O segredo parece ser ensiná-los a usar, junto com o costumeiro "o que vou ganhar?", um pouco ouvido "o que posso oferecer?" Ah, nas possibilidades do oferecer estão coisas inimagináveis, que não encontramos em shoppings, mas em nosso coração e em nossa alma! E para isso, é necessário que saibamos abrir, a cada ano, espaços mágicos para que a família vislumbre o verdadeiro espírito do Natal.


* Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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