Quarta-feira, 16 de agosto de 2017
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A ditadura da violência

Por Carla Oliveira *


Como os jovens poderão experimentar a tão sonhada liberdade vivendo num mundo extremamente violento e amedrontador? E os pais, conseguirão dormir tranqüilos com seus filhos soltos pela cidade?

Lembra quando você era jovem e saía a pé para tomar sorvete e depois ficava trocando beijos com o namorado - ou namorada - no portão de casa? Pois é, os tempos mudaram... Hoje, andar na rua é muito arriscado e exige uma série de cuidados. "Fique atento! Não ande sozinho! Volte para casa antes de escurecer. Feche as janelas do carro!". São tantas as recomendações que às vezes é mais fácil ficar no sofá assistindo televisão.


Quem tem filhos, então, sofre em dobro, pois se preocupa também com a segurança deles e precisa desenvolver mecanismos para protegê-los. Como se não bastasse, para os pais de adolescentes a questão é ainda mais complicada. Nessa fase da vida, todo indivíduo precisa buscar sua identidade e conquistar autonomia. Para que isso possa acontecer, é necessário viver experiências por conta própria, o que significa afastar-se um pouco da família e submeter-se aos perigos existentes fora do ambiente doméstico.


Sair com os amigos, ir a festas ou viajar são os programas favoritos dos jovens. E sem mamãe ou papai por perto, é claro! O adolescente precisa dessa liberdade, que é fundamental para o seu desenvolvimento. Mas, como permitir que um jovem ande sozinho nesse mundo de hoje, que se tornou, sem sombra de dúvida, uma ameaça? Ele estará seguro?


Ninguém está seguro atualmente, mesmo tomando todas as precauções. Mas, obviamente, é possível diminuir as chances de sofrer alguma violência adotando comportamentos menos arriscados. O que os pais precisam ensinar aos filhos é como exercer sua liberdade com responsabilidade. Para isso, eles não podem ser tolerantes demais nem se tornar excessivamente controladores. Não podem ultrapassar os limites da privacidade dos seus filhos, mas devem manter o diálogo e a vigilância. Essa tarefa exige um equilíbrio digno de malabarista de circo! Mas os resultados compensam.

Liberdade sim, mas dentro das regras

"Posso viajar com meus amigos?" A resposta a essa questão exige muita ponderação dos pais, que devem avaliar os riscos envolvidos nessa atividade e perceber se seu filho tem maturidade suficiente para lidar com eles. Os pais são responsáveis por explicar os perigos que existem e ensinar a seus filhos como driblá-los. Muitas vezes, os jovens acham essas recomendações uma bobagem, pois não acreditam que algum mal possa acontecer com eles. No entanto, as regras devem ser claras e seu filho só deverá ter permissão para sair se cumprir as determinações impostas.


A maior parte dos pais, ao menos no início da adolescência, costuma adotar o sistema de "liberdade vigiada", no qual o adolescente tem permissão para fazer seus programas com os amigos, desde que os pais possam saber o que ele está fazendo, aonde e com quem. É claro que cada família é diferente e tem suas próprias convicções, mas existem algumas recomendações que costumam ser adotadas pela maioria dos pais, tais como:


  • Estabelecer horários para chegar em casa e aplicar punições caso não seja cumprido o combinado.


  • Não permitir que os adolescentes andem pela rua, tomem ônibus ou metrô desacompanhados, apenas em grupo e em local movimentado.


  • Levar e buscar os filhos nas festas ou em outros passeios. Se não for possível, pedir para os pais de algum colega para buscá-lo ou deixá-lo em casa.


  • O filho deve assumir a responsabilidade de ligar para avisar que vai atrasar ou para dar a notícia de que chegou bem, etc.


  • Viajar somente na companhia de um adulto conhecido.


  • Se o filho vai dormir na casa de um amigo ou viajar com a família dele, sempre ligar para os pais do colega para confirmar a história, com a desculpa de "eu só quero saber se não vai incomodar".


    Tais mecanismos reduzem as chances dos jovens ficarem expostos ao perigo, mas não impedem que incidentes aconteçam. Se houvesse um meio totalmente eficaz para isso, ninguém precisaria se preocupar mais. Infelizmente, ainda não foi descoberta uma "fórmula mágica" e, por isso, estamos todos, sem exceção, sujeitos à violência. Nem sempre um assalto ou uma agressão é resultado de uma imprudência. Isso pode acontecer a qualquer um, em qualquer lugar.

    O que os olhos não vêem...

    Fingir que um problema não existe não faz com que ele desapareça. Mas, muitos pais ainda preferem se enganar a enfrentar a realidade e, por isso, não admitem a si mesmos que seus filhos fazem sexo, bebem, experimentam drogas ou mentem. O resultado é que não conversam com seus filhos sobre esses assuntos e os jovens, sentindo-se negligenciados ou simplesmente desorientados, podem acabar adotando comportamentos ainda mais arriscados - como dirigir bêbado em alta velocidade, por exemplo.


    A psicóloga Corinna Shabbel, professora da Universidade Mackenzie, em São Paulo, lembra que o diálogo entre pais e filho é fundamental. "Se os pais têm medos, os jovens também os têm... mas se esses medos são "disfarçados" e não se fala abertamente a respeito, cada um vai interpretá-los como pode, gerando desconfortos, discussões e brigas", afirma.


    A especialista ressalta a importância dos limites, que são um referencial importante aos jovens. Mas nada de controle excessivo. Dar limites significa discutir as regras com franqueza e bom senso. "Como mãe sempre fui adepta da liberdade vigiada, com muita conversa, orientação e jamais escondi dados importantes da realidade: criamos pessoas e não orquídeas que precisam de redomas. Liberdade com responsabilidade só pode existir se atuarmos como pais responsáveis e verdadeiros", enfatiza Corinna.


    Pense na seguinte situação: uma garota de 16 anos quer transar com o namorado. Nos motéis, a entrada é proibida para menores de 18. A saída mais comum adotada nesses casos é ficar namorando no carro, estacionado em uma rua escura qualquer. Se você conversar com sua filha sobre o assunto, poderá alertá-la a não ficar namorando no carro, pois isso é muito perigoso, e assim tentar buscar uma solução para essa questão. Se você não acha legal que ela durma na sua casa com o namorado, tudo bem, mas é bom que pense numa alternativa.

    Que tipo de pai ou mãe você é?

    De acordo com o livro "Criando Adolescentes", de Michael Carr-Gregg e Erin Shale, todo adolescente se expõe a situações de risco, pois esse comportamento faz parte do processo de desenvolvimento da sua própria identidade. O que muda é o grau de envolvimento com o perigo, e nesse aspecto o relacionamento dos pais com o filho é que faz a diferença.


    Os autores afirmam que o jovem tem menos chances de se envolver em situações arriscadas quando se sente conectado, isto é, quando sente que é importante para a família e que tem obrigações com ela, pois ele aprendeu a valorizar as relações familiares. Para que isso aconteça, os pais devem estar sempre presentes e dispostos a ouvir e estabelecer diálogos francos com seus filhos, aceitar suas opiniões, fazer concessões, valorizá-los e manifestar seu amor por eles.


    Ainda segundo o livro, existem diversos tipos de pais, como os "democratas", que tratam os filhos como amigos e acabam deixando-os desorientados. Isso não funciona, pois os adolescentes precisam de estabilidade e segurança, que só os pais podem lhes dar. O estilo "avestruz" é formado por pais que preferem fingir que um problema não existe a ter que resolvê-lo, e acabam se eximindo de sua responsabilidade - o que pode levar a problemas muito mais sérios, como já foi dito.


    Existe também o estilo "tolerante", em que os pais temem impor limites aos filhos, e acabam por deixá-los totalmente inseguros. Lembre-se: ao impor regras, você também estará demonstrando ao seu filho que o ama, e isso é fundamental para ele. Por outro lado, há o estilo "inquisição espanhola", formado por pais que enchem os filhos de perguntas para tentar descobrir tudo a respeito da vida deles e acabam invadindo sua privacidade. O resultado é que o adolescente, frustrado, sente que os pais não confiam nele e acaba também não confiando nos pais.


    Por último, existe o estilo "deixar correr solto", em que os pais tomam decisões impulsivamente e podem mudar de idéia a qualquer momento. O adolescente não sabe como deve se comportar diante de pais assim e sente que a situação está fora de controle. Dessa forma, não se mostra disposto a seguir regras, já que ele tende a associar inconsistência com injustiça. E, para seguir as regras, o adolescente precisa ter certeza de que elas são justas.


    Qual o modelo ideal, afinal? Não existe uma resposta concreta para essa resposta, mas podemos concluir que, para um adolescente apresentar um comportamento adequado, ou seja, dentro dos limites da "irresponsabilidade" normal dessa fase, é preciso que ele:


  • Sinta-se amado, valorizado e respeitado


  • Tenha regras e limites claros


  • Possa conversar com os pais e se relacionar bem com eles


  • Sinta-se parte da família


  • Perceba que é digno de confiança e que deve corresponder a essa expectativa


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