Domingo, 23 de abril de 2017
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Pais nota mil

Por Maria Paola de Salvo *


Será que somos bons pais? Se essas e outras dúvidas insistem em perturbar o seu sono, confira algumas respostas, na entrevista com a psicóloga Lídia Aratangy.

Se existisse um certificado capaz de atestar a qualidade dos pais, como os concedidos às empresas, certamente muitos deles estariam dispostos a se submeter aos testes mais rigorosos para terem certeza de que são os melhores perante os filhos. "Sempre tive dúvidas se o tempo que gastava com meu filho era suficiente para a sua formação". Questões como a de Marta Perez, mãe de 3 filhos, são exemplos da insegurança que ronda os pais quando o assunto é educação das crianças.


Essa preocupação, além de natural, é importante. No entanto, de nada adianta colocar a perfeição como o único objetivo a ser atingido. Lembre-se de que para educar não existem padrões, regras ou preceitos prontos a serem seguidos como uma receita de bolo. Afinal, há pais e filhos dos mais diversos tipos, culturas e valores.


A sensibilidade, a observação, além de muito amor são os caminhos para aprender a lidar com o seu pequeno. Agindo assim, você não precisa ser "expert" em educação para garantir que todos os valores que considera importantes sejam transmitidos a ele. Basta ser "Phd" em paciência e tolerância.


E enquanto o certificado de "melhor pai" não chega, resta o consolo: "eles só saberão se exerceram bem seus papéis na educação dos filhos quando estes estiverem educando seus próprios filhos", ressalta Lídia Aratangy, psicóloga em São Paulo, que dá dicas para resolver dilemas e esclarecer alguns mitos em torno da complicada tarefa de educar. Acompanhe a entrevista a seguir:


Existem adjetivos, características ou qualidades específicas capazes de definir o que é ser bom pai ou boa mãe?

Paciência, tolerância, bons olhos e, principalmente, bons ouvidos, são desejáveis. Além da capacidade de abdicar do desejo de ser perfeito e admitir que o filho tenha dificuldades e fraquezas.


Na sua opinião, quais os requisitos ou qualidades que um casal, que esteja planejando ter filhos, deve ter para garantir uma boa formação à criança?

O amor é pré-requisito, mas não garantia de competência. Ao educar uma criança saiba colocar limites e tolerar frustrações (suas e dos filhos). Mostre a ela que este sentimento faz parte da vida e não representa um desvio de rota. Algumas atitudes, no entanto, podem favorecer a boa formação:

  • Não faça muitas projeções em cima das crianças: frases como "Meu filho terá tudo o que não tive" devem ser abolidas do seu repertório.

  • Procure não idealizar muito: imaginar que seu filho terá um tipo de personalidade ou característica é o melhor caminho para virar "madrasta" - como nos contos de fada -, quando a criança começar a se mostrar diferente do imaginário dos pais, o que fatalmente ocorrerá.


    Comunicar-se bem, ser objetivo, estar sempre aberto ao diálogo, além de ter muita paciência são os ingredientes básicos que todo bom pai deve buscar?

    Ninguém se comunica bem o tempo todo. Para comunicar emoções, por exemplo, é mais importante ser subjetivo do que objetivo, desde que você reconheça para si mesmo que não está sendo objetivo. Muitas vezes, o diálogo é um monólogo disfarçado. E mesmo muita paciência pode chegar ao fim. Deixe seus filhos perceberem que os pais também têm limites.


    Existe como satisfazer toda e qualquer necessidade de afeto dos filhos? Como fazer isso diante da atribulação e da correria dos dias de hoje?

    Não dá para se medir a necessidade de afeto. Mas esteja certo disso: toda criança tem uma demanda ilimitada de atenção. Por isso, é difícil ou quase impossível satisfazer todo esse desejo. Faça o que puder. Sempre com alegria e, se possível, sem culpas.


    Sentir-se inseguro ou questionar-se sobre a qualidade de educação dada aos filhos pode contribuir para criar crianças também inseguras ?

    Tenho mais medo dos pais cheios de certezas e seguranças. Educar é complicado. Inevitavelmente educamos usando princípios e parâmetros que aprendemos no passado, para ensinar a criança a enfrentar o mundo de amanhã. Nesse caso, não se culpe por ser inseguro. Isso não significa que não estamos certos de nossos valores. Só não podemos ter certeza de que sempre sabemos o que é melhor para o outro.


    Como conquistar a amizade e a confiança das crianças e incentivá-las a contar sempre a verdade?

    Seja confiável e conte sempre a verdade. Poucos fazem isso. É muito tentador, por exemplo, pedir à criança que atenda ao telefone e "se for a Tia Maria, diga que a gente ainda não chegou!" Sem mencionar as mentiras tidas como "bem intencionadas", formuladas com a desculpa de que o filho não seria capaz de entender a verdade. Lembre-se: há sempre um jeito de explicar de modo a se fazer entender.


    Até que ponto os pais podem ou devem ser amigos dos filhos?

    A autoridade de pai inclui o diálogo, pois ela se baseia na diferença de experiência e de sabedoria em relação ao filho. Além disso, a autoridade não é arbitrária nem imposta pela força. Você não precisa tentar se transformar em "amiguinho" do seu pequeno para conquistar a confiança dele. Mesmo porque, esse mito não resiste à adolescência. Afinal, o pai e a mãe ideais de um adolescente de 14 anos teriam de ter uns 16 anos, o que felizmente, é uma impossibilidade biológica...


    Como assegurar os filhos de que são muito amados pelos pais?

    Para que seus filhos se sintam seguros quanto ao amor e à atenção dispensados a eles, você não deve sentir vergonha da ternura. Saiba acolher tanto os risos quanto as lágrimas. Pais afetivos são aqueles que fazem as festas para comemorar junto e choram os lutos para partilhar as dores. Não há nada melhor do que viver numa família em que a troca de emoções é o sal de cada dia. É difícil, mas não impossível. Fazemos o que podemos, e o espantoso é que em geral dá certo.


    Como contribuir para que o filho tenha boa auto-estima, seja uma pessoa segura, idônea, responsável?

    Eu recomendo a esses pais que tratem de não morrer antes da adolescência dos filhos. Dessa forma, eles estarão por perto para o acerto de contas, quando os filhos vierem se queixar de que os pais fizeram tudo errado (o que quer que fosse). E então poderão responder, honestamente, que fizeram o que sabiam e o que podiam. Que os filhos façam melhor, quando chegar a hora.


    Há como os pais avaliarem se estão exercendo bem seus papéis na educação da criança? Dá para perceber o reflexo, nos próprios filhos, da formação que lhes foi dada?

    Eles só saberão quando seus filhos estiverem educando os próprios filhos. Minha mãe dizia que se a gente pudesse ser mãe antes de ser filha, todos seríamos mais felizes. Como não dá, temos de nos conformar com a insegurança, acompanhada da esperança e da consciência de que foi feito o que acreditava ser certo, além de compatível com os recursos de cada um. E ter alguma fé na vida. Ela se encarregará de aparar algumas arestas e adoçar os rebeldes.


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